Em um mundo em que autonomia e liberdade feminina são amplamente discutidas, algumas mulheres trilham um caminho que parece, à primeira vista, oposto — mas que, para elas, representa justamente a expressão máxima de escolha. Movidas por fé e convicção, elas adotam uma postura que rejeita contraceptivos e acolhe a maternidade como missão espiritual. Suas histórias revelam uma realidade complexa e muitas vezes mal compreendida.
Abertos à vida: um conceito além da quantidade de filhos

Mariana Arasaki, moradora de São Paulo e grávida do 13º filho, representa um exemplo contundente de “abertura à vida”, um princípio baseado na entrega à vontade divina no campo da fertilidade. Ela e o marido, Carlos, sempre desejaram uma família grande. Mas mais do que o número de filhos, o que norteia a vida do casal é a fé incondicional de que Deus tem um plano para sua história.
Segundo Mariana, não se trata de ter muitos filhos por ideal ou por imposição. “Cada família tem um chamado diferente”, afirma. A escolha deles implica recusar métodos contraceptivos artificiais e permitir que a vida aconteça naturalmente, sem interferência humana, conforme a tradição católica preconiza.
Apesar de seu estilo de vida sugerir associação com o movimento “tradwife” — que exalta papéis femininos tradicionais — Mariana rejeita o rótulo. Já trabalhou fora até o nascimento do quinto filho e hoje atua com redes sociais. Ela e o marido incentivam as filhas a seguirem suas vocações profissionais, dentro da liberdade que cada uma encontrar.
Fé, liberdade e rotina: entre o altar e a realidade

Diéssica Moreti, de Gaspar (SC), também abraça a mentalidade de abertura à vida. Casada desde 2011, conheceu o marido numa boate, algo improvável para um casal conservador. No início do casamento, usavam contraceptivos, prática que Diéssica hoje considera um erro. Com o tempo, sentiu-se chamada a confiar plenamente na providência divina e, desde então, teve seis filhos.
Diéssica é adepta do método Billings, técnica de regulação natural da fertilidade aprovada pela Igreja. A prática, que observa o muco cervical, pode ser usada tanto para evitar quanto para buscar uma gravidez, sempre dentro do que o casal julga adequado diante de sua realidade familiar e espiritual.
Ela também se identifica com o termo “tradwife”, mesmo tendo uma loja própria de roupas infantis cristãs. Para Diéssica, se as condições permitissem, ela deixaria o trabalho e se dedicaria exclusivamente à casa e aos filhos. Defende que o homem deve ser o provedor principal — desde que isso seja possível na prática.
Trabalho, vocação e equilíbrio
O caso de Lívia Marques, de Fortaleza, adiciona outra nuance ao tema. Dentista de formação, Lívia deixou o consultório quando o primeiro filho nasceu, há dez anos. Hoje, o sustento da casa vem do marido, mas ela não exclui a possibilidade de voltar a trabalhar, se necessário. A decisão foi uma construção conjunta do casal e não imposta por dogmas familiares.
Lívia reconhece que cresceu com outra mentalidade. A avó a incentivava a seguir carreira e a não depender de ninguém. No entanto, ao experimentar a maternidade em sua plenitude, encontrou propósito e realização numa rotina que, para muitos, poderia parecer limitante.
Ela cuida dos filhos e da casa com o auxílio de uma funcionária durante a semana. Nos demais dias, assume todas as tarefas com o apoio do marido. Para ela, esse arranjo é fruto de uma escolha livre e consciente — uma resposta pessoal ao que acredita ser o chamado de Deus.
Apoio e estrutura: a maternidade com leveza
Apesar da rotina intensa, nenhuma das três protagonistas romantiza a exaustão. Tanto Mariana quanto Diéssica e Lívia reconhecem a importância de uma rede de apoio. Mariana conta com uma estrutura que inclui babás e faxineira. Para ela, isso não representa abrir mão do papel de mãe, mas uma forma de manter o equilíbrio e cuidar da saúde emocional.
“Contratar uma babá não é delegar a maternidade. É permitir que você possa tomar um banho em paz ou tomar um café com uma amiga. Isso é essencial para manter uma maternidade mais leve e consciente”, defende.
Diéssica tem uma diarista semanal, enquanto Lívia equilibra as tarefas com uma ajudante e o envolvimento ativo do marido. Todas concordam: para viver uma maternidade plena, é necessário também cuidar de si.
Muito além do estereótipo
Segundo a pesquisadora Nathalie Hornhardt, professora da Faap, os conceitos de “abertura à vida” e “tradwife” partem de contextos distintos, mas frequentemente se sobrepõem nas práticas e discursos. Enquanto o primeiro surge da tradição cristã e ganhou força com a encíclica Humanae Vitae, o segundo se consolidou na última década como uma reação à sobrecarga feminina moderna.
Nas redes sociais, há um verdadeiro mercado voltado a esse público: desde doulas e ginecologistas católicos até métodos naturais de planejamento familiar. Para Nathalie, esse fenômeno reflete uma busca por estabilidade e sentido em meio ao cansaço da modernidade.
Essas mulheres, portanto, não rejeitam o progresso ou a autonomia. Elas apenas encontraram, na fé e na maternidade, uma forma particular de viver o que consideram liberdade. Mais do que seguir regras rígidas, elas se guiam por princípios espirituais e buscam, acima de tudo, fidelidade ao que acreditam ser sua missão.
Palavras finais
Ao contrário do que muitos imaginam, as histórias dessas mulheres não são sobre submissão, mas sobre decisão. Elas fazem escolhas conscientes, refletidas e alinhadas com seus valores. Em um tempo em que a liberdade é constantemente redefinida, talvez haja algo de revolucionário em simplesmente confiar — e deixar Deus agir.
[Fonte: UOL]