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Ciência

A geração que não consegue largar os ultraprocessados

Um estudo da Universidade de Michigan revela que a Geração X e os baby boomers tardios, sobretudo mulheres entre 50 e 64 anos, são os mais vulneráveis à dependência de alimentos ultraprocessados. A pesquisa mostra como a exposição precoce a doces, refrigerantes e fast-food deixou marcas duradouras na saúde física e mental.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Os ultraprocessados — embalados como práticos, saborosos e até “saudáveis” — acompanharam a infância e adolescência da Geração X e dos baby boomers tardios. Agora, décadas depois, a ciência aponta um preço alto: altos índices de adição alimentar. A pesquisa da Universidade de Michigan mostra que esses produtos irresistíveis não só moldaram hábitos de consumo, como também criaram um padrão de dependência que persiste até hoje.

O estudo que acendeu o alerta

Publicada na revista Addiction, a pesquisa utilizou dados de mais de 2.000 adultos dos Estados Unidos entrevistados no National Poll on Healthy Aging. O levantamento mostra que 21% das mulheres e 10% dos homens entre 50 e 64 anos cumprem critérios de adição a ultraprocessados, taxas muito mais altas que em grupos etários mais velhos.

Entre os participantes de 65 a 80 anos, a porcentagem cai para 12% em mulheres e 4% em homens. A diferença sugere que crescer em meio a biscoitos industrializados, refrigerantes e refeições prontas deixou cicatrizes mais profundas em quem teve contato precoce com esses produtos.

Como a adição foi medida

Ultraprocessados
© Jonathan Borba

Os cientistas aplicaram a Escala de Adição à Comida de Yale (mYFAS 2.0), que avalia 13 sinais típicos de dependência, como desejos intensos, abstinência e tentativas fracassadas de reduzir o consumo. Nesse caso, a “substância” não era álcool nem tabaco, mas alimentos ricos em gordura, açúcar, sal e aditivos criados para gerar prazer imediato.

“Esperamos que o estudo preencha uma lacuna sobre a adição a ultraprocessados em adultos mais velhos”, afirmou a pesquisadora Lucy K. Loch, da Universidade de Michigan.

Diferenças de gênero e marketing dos anos 80

Ultraprocesados
© Vincent L – Unsplash

Enquanto vícios como álcool e tabaco tendem a ser mais prevalentes em homens, a dependência de ultraprocessados aparece com força maior em mulheres. Uma das hipóteses está no marketing direcionado dos anos 1980, que vendia produtos “light” ou “de dieta” a mulheres — como biscoitos sem gordura ou refeições prontas de baixas calorias — muitas vezes embalados como alternativas saudáveis.

“A exposição durante uma janela de desenvolvimento crítica ajuda a explicar essa vulnerabilidade”, disse Ashley Gearhardt, autora principal do estudo e diretora do Food and Addiction Science & Treatment Lab da Universidade de Michigan.

Impacto na saúde física e mental

Pesquisas mostram que o estigma do peso e a autocrítica podem afetar negativamente a saúde mental e os hábitos saudáveis.
© Towfiqu barbhuiya-Unsplash

Os efeitos vão além da balança. A pesquisa mostra que pessoas que se avaliavam em má saúde física ou mental, ou que relataram isolamento social frequente, apresentaram muito mais chances de dependência.

Entre as mulheres de 50 a 80 anos que se consideravam acima do peso, 33% cumpriam critérios de adição — 11 vezes mais do que aquelas que relatavam peso adequado. Entre homens com sobrepeso, a taxa subia para 17%, o que representa 19 vezes mais risco.

A saúde mental também pesou: homens com sintomas psicológicos tinham quatro vezes mais chances de dependência; entre mulheres, quase três vezes. O isolamento social, por sua vez, triplicava o risco em ambos os sexos.

O risco dos “falsos saudáveis”

Outro ponto preocupante é a popularidade dos ultraprocessados vendidos como “melhores escolhas”, como barras de proteína, biscoitos integrais e versões “low fat”. Segundo Gearhardt, esses produtos podem ser ainda mais aditivos, já que enganam consumidores que tentam reduzir calorias, sobretudo mulheres, alvo de maior pressão social em relação ao peso.

E as próximas gerações?

Para os autores, os dados sugerem que existem janelas críticas de desenvolvimento nas quais a exposição a ultraprocessados pode gerar dependência duradoura. Se as tendências atuais se mantiverem, as próximas gerações — criadas em meio a uma oferta ainda maior de fast-food e snacks industrializados — podem apresentar taxas de adição ainda mais altas.

Em outras palavras: a indústria criou um ciclo difícil de quebrar. E agora, a ciência revela que seus efeitos ultrapassam o apetite — atingem corpo, mente e até o envelhecimento de toda uma geração.

 

[ Fonte: DW ]

 

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