O lobby da indústria do tabaco tem usado um estudo de 2020 para defender que o uso de cigarros eletrônicos estaria substituindo o cigarro tradicional entre os jovens. Esse argumento tem sido apresentado a parlamentares na Nova Zelândia e na Austrália como base para impedir leis mais rígidas sobre os vapes. Mas uma nova pesquisa mostra que essa narrativa não se sustenta.
O que a indústria quer que você acredite

Empresas como a British American Tobacco vêm alegando que os jovens neozelandeses estão trocando o cigarro pelo vape. Segundo elas, a popularização dos cigarros eletrônicos ajudou a reduzir o tabagismo, com base em um estudo publicado em 2020 na Lancet Public Health.
Esse estudo analisou dados de 2014 a 2019 e concluiu que o declínio do fumo entre adolescentes coincidia com a alta do vaping, sugerindo que este poderia estar substituindo o cigarro.
O que a nova pesquisa realmente descobriu
Um novo estudo, publicado na Lancet Regional Health – Western Pacific, usou exatamente a mesma base de dados, mas com uma abordagem mais ampla: 25 anos de dados, de 1999 a 2023, e quase 700 mil adolescentes entre 14 e 15 anos.
A análise mostrou que, embora o número de adolescentes que fumam tenha continuado caindo, o ritmo de queda desacelerou significativamente a partir de 2010 — exatamente quando o vaping começou a se popularizar. Isso vale tanto para os jovens que já fumaram alguma vez quanto para os que fumam regularmente.
Por exemplo, em 2023, 12,6% dos adolescentes já haviam experimentado cigarro. Se a tendência anterior a 2010 tivesse continuado, esse número seria de apenas 6,6%. Da mesma forma, 3% fumavam regularmente — mas a expectativa era de apenas 1,8% se o ritmo de declínio tivesse sido mantido.
Vaping: substituto ou porta de entrada?
Ao contrário do que afirma a indústria, os dados sugerem que o vaping pode estar atuando como uma porta de entrada para o tabagismo. Essa teoria é reforçada por estudos de coorte (que acompanham indivíduos ao longo do tempo), apontando que adolescentes que vaporizam têm mais chances de começar a fumar cigarros tradicionais posteriormente.
Os pesquisadores testaram várias hipóteses: mudanças no preço dos cigarros, diferentes anos de “ponto de inflexão” para o surgimento do vape, e mesmo assim os resultados foram consistentes — o avanço do vaping coincidiu com a desaceleração da queda no tabagismo juvenil.
Onde o estudo de 2020 falhou
O estudo usado pelo lobby considerou apenas os anos de 2014 a 2019, ignorando décadas de dados anteriores. Com isso, deixou de verificar se o declínio no tabagismo realmente acelerou com o vape ou apenas seguiu uma tendência que já vinha de antes.
Mais grave ainda: a pesquisa foi usada como prova em audiências parlamentares tanto na Nova Zelândia quanto na Austrália, sendo citada textualmente pela indústria para barrar regulações mais rígidas contra os cigarros eletrônicos.
O que isso significa para políticas públicas
Os autores da nova pesquisa alertam que políticas que facilitam o acesso ao vape por adultos podem ter efeitos colaterais perigosos para os jovens. Ao enfraquecer a regulamentação, governos podem, sem querer, estimular o uso do cigarro entre adolescentes.
A conclusão é clara: o vaping não está substituindo o cigarro entre os jovens — e pode estar atrasando o progresso na luta contra o tabagismo. É hora de repensar a forma como essas tecnologias são reguladas e garantir que a saúde dos adolescentes seja prioridade, acima dos interesses da indústria.
Fonte: G1.Globo