A guerra parece congelada no mapa, mas longe de estar resolvida. As linhas de frente quase não se movem, os acordos fracassam e as tentativas de cessar-fogo se acumulam sem sucesso. Por trás dessa estagnação, porém, cresce um projeto muito mais ambicioso do que a simples conquista de cidades ou regiões: uma tentativa de redefinir poder, influência e o próprio equilíbrio da Europa.
Por que o impasse não significa derrota para Moscou
Apesar das perdas humanas e do avanço lento, a Rússia manteve capacidade de reposição de tropas, algo que a Ucrânia não consegue igualar com a mesma velocidade. Hoje, Moscou controla cerca de 20% do território ucraniano — zonas que reivindica desde 2014, quando anexou a Crimeia e apoiou movimentos separatistas no leste do país.
A guerra, portanto, não começou em 2022, mas se arrasta há mais de uma década. Do outro lado, a Europa enfrenta fragilidade política, crises internas, migração, populismo e dificuldades econômicas que limitam sua capacidade de sustentar sozinha a reconstrução da Ucrânia. O apoio ocidental nunca entregou ferramentas para vencer, apenas para resistir.
Diante desse cenário, surge a grande questão: por que Moscou não aceita acordos que, à primeira vista, já lhe seriam extremamente favoráveis?
A ambição que atravessa gerações
A resposta passa por uma visão histórica que o governo russo repete há mais de duas décadas: a queda da União Soviética teria sido uma “catástrofe geopolítica”. Para essa leitura, o colapso foi tão abrupto que deixou pendente a definição real de fronteiras e o destino das populações russas que passaram a viver em novos países.
Esse argumento foi usado para justificar intervenções na Moldávia, na Geórgia, no Donbass e, finalmente, a invasão em grande escala da Ucrânia. Dentro dessa lógica, a guerra atual não seria um episódio isolado, mas parte de um processo maior de “correção histórica”.
Mais do que restaurar o comunismo, a meta seria recuperar influência e reabrir negociações diretas com os Estados Unidos sobre a ordem de poder que surgiu após 1991.
O jogo com Washington e o peso da aliança chinesa
O desejo de Moscou é forçar uma negociação global de zonas de influência, semelhante ao que ocorreu no pós-Segunda Guerra Mundial. Porém, os Estados Unidos não demonstram disposição para aceitar essa lógica imperial.
Além disso, a Rússia já não possui o poder militar da antiga URSS, como ficou evidente no desempenho relativamente limitado na Ucrânia. Ainda assim, surgiu um fator novo: a aliança com a China. Mesmo ocupando posição secundária nessa parceria, Moscou ganhou peso estratégico, algo que preocupa seriamente Washington.
Se essa aliança se enfraquecer no futuro, a disposição americana para negociar pode mudar. Mas, por enquanto, o impasse permanece.
A política interna da Ucrânia complica qualquer concessão
Dentro da Ucrânia, a cessão de territórios esbarra na Constituição, que exige plebiscito. Além disso, o cenário político interno é instável, com risco de mudanças nas próximas eleições. Isso torna qualquer negociação ainda mais sensível.
Cesses de fogo, muitas vezes, acabam se transformando em fronteiras definitivas. E todos os lados sabem disso.
Um conflito que pode pausar, mas não se encerrar
A única proposta viável de mediação continua sendo a dos Estados Unidos. Mas mesmo que um cessar-fogo seja alcançado, nada indica que o objetivo mais profundo será abandonado.
A guerra pode até parar. O projeto que a originou, não.