O avanço dos veículos eletrificados trouxe um novo desafio para a indústria: o que fazer com as baterias quando elas deixam de oferecer o desempenho necessário para movimentar um automóvel? Embora não sejam as mais ideais para esse uso, muitas ainda conservam uma grande capacidade de armazenamento. Em vez de se tornarem resíduos, algumas delas estão iniciando uma segunda vida em um projeto que une energia solar, sustentabilidade e inclusão social, beneficiando comunidades que convivem com frequentes interrupções no fornecimento de eletricidade.
Baterias aposentadas dos carros estão ganhando uma nova utilidade longe das estradas
Nem toda bateria retirada de um carro elétrico ou híbrido chega ao fim de sua vida útil. Em muitos casos, ela ainda mantém capacidade suficiente para desempenhar outras funções por vários anos. Foi justamente essa característica que motivou uma iniciativa na Colômbia voltada ao aproveitamento desses equipamentos em sistemas de armazenamento de energia solar.
O projeto, chamado Reto Ilumina a Colombia, foi desenvolvido pela Volvo Cars Colômbia em parceria com empresas especializadas em soluções energéticas para áreas rurais. A proposta é simples: reutilizar baterias automotivas recondicionadas para armazenar a eletricidade produzida por painéis solares, garantindo fornecimento mesmo quando o sol se põe ou a rede elétrica apresenta falhas.
Esse tipo de sistema resolve um dos principais desafios da energia fotovoltaica. Os painéis geram eletricidade apenas enquanto recebem luz solar, reduzindo drasticamente sua produção durante a noite ou em dias muito nublados. Sem armazenamento, boa parte dessa energia deixa de estar disponível justamente quando a comunidade mais precisa.
As baterias reaproveitadas entram em ação nesse momento. Depois de passarem por inspeções e processos de recondicionamento, elas armazenam a energia produzida durante o dia e a liberam de forma gradual quando o consumo aumenta ou quando ocorrem interrupções na rede convencional.
A primeira experiência aconteceu em 2025, na ecoaldeia Nashira, localizada em Palmira. O local, administrado por um grupo de mulheres, recebeu uma bateria proveniente de um veículo híbrido plug-in utilizado em treinamentos. Integrada ao sistema fotovoltaico, ela passou a abastecer a cozinha comunitária responsável pela preparação diária de refeições para mais de 70 pessoas.
O resultado demonstrou que uma bateria considerada inadequada para um automóvel ainda pode oferecer excelente desempenho em instalações fixas, onde peso, tamanho e autonomia deixam de ser fatores tão críticos.
Energia armazenada garante serviços essenciais durante os apagões
Após os resultados positivos da primeira etapa, o projeto foi ampliado para outras comunidades que enfrentam dificuldades frequentes com o fornecimento de eletricidade.
Uma das beneficiadas foi a Instituição Educacional de Desenvolvimento Rural La Selva, localizada no município de Ginebra, no departamento de Valle del Cauca. A escola atende aproximadamente 30 alunos do ensino fundamental e sofria constantemente com interrupções causadas por fortes chuvas, que comprometiam tanto as aulas quanto o preparo da alimentação escolar.
Com a instalação do sistema formado por painéis solares e baterias reaproveitadas, tornou-se possível manter equipamentos funcionando, conservar alimentos refrigerados e garantir maior continuidade das atividades educacionais mesmo durante falhas prolongadas na rede elétrica.
O projeto também chegou ao refeitório comunitário de Tienda Nueva, em Palmira. Nesse espaço, a energia armazenada permite manter a iluminação, preservar alimentos e assegurar o funcionamento de um ambiente utilizado não apenas para refeições, mas também para encontros e atividades sociais da comunidade.
Apesar dos avanços, os desafios ainda são significativos. Dados oficiais mostram que a Colômbia alcançou, em 2024, uma cobertura elétrica nacional de 93,12% das residências. Entretanto, essa realidade muda bastante quando se compara áreas urbanas e rurais. Enquanto as cidades registram cobertura próxima de 98,7%, as regiões rurais permanecem em torno de 75,9%, deixando milhares de famílias sujeitas a interrupções frequentes no fornecimento de energia.
Em algumas localidades, os apagões podem durar até 72 horas, comprometendo serviços essenciais e afetando diretamente escolas, cozinhas comunitárias e pequenos estabelecimentos.
Além da instalação dos equipamentos, um dos diferenciais da iniciativa é o treinamento oferecido aos moradores. Técnicos parceiros capacitam as comunidades para realizar a operação e a manutenção dos sistemas, reduzindo a dependência de assistência externa e aumentando a vida útil dos equipamentos.
Embora o reaproveitamento dessas baterias não resolva sozinho os desafios da infraestrutura elétrica do país, a iniciativa mostra como componentes que perderam valor para a indústria automotiva ainda podem desempenhar um papel estratégico. Ao prolongar sua vida útil e armazenar energia limpa produzida pelo sol, essas baterias ajudam a garantir eletricidade quando ela mais faz falta e demonstram que a economia circular pode gerar benefícios concretos tanto para o meio ambiente quanto para a população.