Os óculos inteligentes da Meta foram criados para colocar câmeras, microfones e inteligência artificial diante dos olhos do usuário. O problema é que essa combinação também abriu espaço para gravações sem consentimento e uma crescente discussão sobre privacidade. Agora, a empresa prepara uma alternativa radicalmente diferente: um modelo que mantém recursos de IA, mas elimina justamente o componente que provocou algumas das maiores controvérsias.
A câmera simplesmente desaparece
Conhecidos internamente pelo codinome Luna, os novos óculos inteligentes da Meta devem abandonar completamente a câmera frontal encontrada nos modelos atuais.
Isso significa que o usuário não poderá utilizá-los para fotografar ou gravar aquilo que está vendo. A inteligência artificial também perderá a capacidade de analisar visualmente o ambiente por meio de uma câmera.
Em compensação, a Meta pretende concentrar o dispositivo em áudio e interação por voz.
Segundo as informações disponíveis, os Luna terão seis microfones integrados, além de alto-falantes. A ideia é permitir conversas com os recursos de inteligência artificial da empresa sem precisar retirar o celular do bolso.
A ausência da câmera também traz uma vantagem física: os óculos podem ser mais finos e discretos, aproximando-se ainda mais da aparência de uma armação convencional.
Mas a mudança acontece justamente quando a Meta enfrenta uma crescente discussão sobre o que seus óculos atuais podem registrar.
Os óculos com câmera viraram um problema de privacidade

Os atuais modelos permitem tirar fotos e gravar vídeos de maneira extremamente discreta.
Para alertar quem está por perto, a Meta instalou uma pequena luz branca na parte frontal dos óculos. Quando o usuário registra conteúdo para sua galeria, esse LED pisca para indicar que a câmera está funcionando.
Na prática, porém, usuários começaram a buscar maneiras de esconder ou modificar essa luz.
A empresa respondeu atualizando o sistema para desativar a câmera quando detecta que o LED foi bloqueado, danificado ou adulterado. A Meta também afirma que continua aprimorando seus mecanismos para identificar tentativas de manipulação.
O problema ultrapassou rapidamente a discussão técnica.
Segundo o La Jornada, bares, escolas, teatros e tribunais britânicos chegaram a restringir o uso desses dispositivos. Também surgiram críticas relacionadas a pessoas utilizando os óculos para filmar desconhecidos sem consentimento.
E uma nova disputa judicial elevou ainda mais a pressão.
Mais de 70 pessoas processaram a Meta
Uma ação coletiva nos Estados Unidos reúne mais de 70 pessoas que compraram, utilizaram ou afirmam ter sido filmadas pelos óculos inteligentes da empresa.
Os autores alegam que imagens privadas e sensíveis chegaram a trabalhadores terceirizados encarregados de revisar e rotular conteúdos utilizados nos sistemas de inteligência artificial da Meta. Entre as alegações estão registros involuntários em banheiros, quartos e outros ambientes privados. A Meta contesta as acusações e afirma adotar medidas para proteger a privacidade e remover informações identificáveis dos dados revisados.
Existe ainda uma complicação importante.
O LED que indica gravações convencionais não necessariamente funciona da mesma maneira quando a câmera é utilizada por recursos de IA para interpretar aquilo que está diante do usuário. Documentos da própria empresa distinguem a captura destinada à galeria do processamento visual feito pelo assistente.
Isso transformou uma pergunta aparentemente simples, “a pessoa está me filmando?”, em outra muito mais complicada: os óculos estão analisando aquilo que estão vendo?
Retirar a câmera dos Luna elimina boa parte desse dilema.
Sem câmera não significa sem sensores
Os novos óculos, porém, continuarão captando informações do ambiente.
Seis microfones significam que o áudio será essencial para o funcionamento do aparelho. O usuário poderá conversar com o assistente, fazer perguntas e utilizar recursos inteligentes por comandos de voz.
Por isso, a retirada da câmera não encerra automaticamente todas as discussões relacionadas à privacidade.
Ela simplesmente muda a natureza delas.
O dispositivo deixa de funcionar como uma câmera vestível extremamente discreta e passa a se aproximar de fones inteligentes incorporados a uma armação tradicional.
Há também vantagens práticas. Sem o módulo fotográfico e parte dos componentes associados a ele, os Luna devem apresentar hastes mais finas e melhor autonomia de bateria.
A Meta estaria preparando dois estilos, chamados Clubmaster e Burbank, com lançamento esperado para outubro. A empresa ainda não havia confirmado oficialmente todos esses detalhes no momento das reportagens.
A Meta não está abandonando as câmeras
Talvez este seja o detalhe mais importante.
Os Luna não representam o fim dos óculos com câmera da empresa.
A expectativa é que a Meta apresente sua nova geração de dispositivos vestíveis durante o Meta Connect, marcado para 23 e 24 de setembro. Além dos Luna, estão previstos modelos atualizados com câmera e novos projetos relacionados à realidade aumentada.
Portanto, a estratégia parece ser ampliar as opções.
Quem quiser fotografar, gravar vídeos e utilizar inteligência artificial visual continuará encontrando modelos equipados com câmera. Quem preferir uma experiência mais discreta, focada em música, chamadas e assistentes de IA, poderá escolher uma versão sem ela.
A mudança revela um desafio que vai acompanhar toda a indústria de dispositivos vestíveis.
Fazer uma câmera desaparecer dentro de óculos comuns é uma conquista tecnológica impressionante. Convencer todas as pessoas ao redor de quem usa esses óculos de que isso é uma boa ideia está se mostrando uma tarefa muito mais complicada.
[Fonte: Jornada]