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Tecnologia

O perigo do scroll infinito: por que é tão difícil largar o celular

Notificações, vídeos curtos e recomendações constantes disputam nossa atenção e podem afetar concentração, relações pessoais e até o desempenho escolar
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Tempo de leitura: 4 minutos

O celular ocupou praticamente todos os pequenos intervalos do cotidiano. Está no transporte público, na fila, durante uma caminhada e até em encontros com amigos. Para os pesquisadores Fabricio Ballarini e Juan Eduardo Bonnin, essa presença constante ajuda a explicar por que se tornou tão difícil simplesmente guardar o aparelho.

O problema não estaria apenas no número de horas diante da tela. Recursos como notificações, recomendações automáticas e scroll infinito são desenvolvidos para prolongar nossa permanência nas plataformas. Com isso, momentos antes destinados ao descanso, à conversa ou simplesmente ao tédio acabam preenchidos por estímulos digitais.

O celular deixou de ser apenas uma ferramenta

Tela Do Celular
© Magnific

Ballarini chama atenção para uma mudança relativamente simples de perceber. O celular passou a ocupar momentos que anteriormente envolviam espera ou observação.

Isso acontece no ponto de ônibus, no metrô, enquanto caminhamos ou esperamos o sinal abrir. O pesquisador também destaca uma cena cada vez mais comum: grupos de pessoas reunidas fisicamente, mas com praticamente todos olhando para suas próprias telas.

O impacto pode ir além das relações sociais. Dependendo da intensidade e do tipo de uso, entram na discussão questões relacionadas à postura, à concentração e à saúde mental.

Bonnin propõe uma diferença importante entre o smartphone e ferramentas tradicionais. Uma caneta é utilizada para escrever e depois guardada. Um telefone convencional servia para realizar uma chamada e podia ser deixado de lado.

O smartphone funciona de outra maneira.

Segundo o linguista, ele se transformou em um espaço no qual parte da vida acontece. Conversas, pagamentos, entretenimento, trabalho, notícias e relações sociais passaram a depender de um único dispositivo.

Por que as notificações são tão difíceis de ignorar

Antes dos alertas dominarem o celular, o Facebook criou um app que queria transformar cada notificação em notícia
© Unsplash

Essa relação ajuda a explicar por que limitar o celular pode ser complicado.

Notificações exploram nossa tendência natural de prestar atenção às mudanças que acontecem ao redor. O cérebro monitora constantemente sinais do ambiente, e uma vibração, um som ou um alerta visual pode interromper rapidamente outra atividade.

Mesmo quando facilita tarefas cotidianas, o smartphone também pode aumentar a quantidade de estímulos que disputam nossa atenção.

Bonnin argumenta que esse efeito não é apenas uma consequência inesperada das plataformas. Muitos aplicativos são projetados especificamente para aumentar o tempo de permanência e incentivar interações constantes.

É justamente nesse ponto que entra um dos recursos mais poderosos: o scroll infinito.

O scroll infinito elimina o momento de parar

Em uma página tradicional, existe um limite. O conteúdo termina e o usuário precisa decidir conscientemente se deseja continuar.

No scroll infinito, esse ponto praticamente desaparece.

Novos vídeos, fotos e publicações surgem continuamente. Além disso, os algoritmos de recomendação tentam descobrir quais conteúdos têm maior probabilidade de impedir que a pessoa abandone o aplicativo.

Ballarini explica que o usuário muitas vezes recebe vídeos que nunca procurou. Basta demonstrar interesse por alguns segundos para que o sistema interprete aquele comportamento e comece a oferecer conteúdos semelhantes.

Essa personalização cria uma sequência potencialmente interminável de estímulos adaptados ao comportamento de cada pessoa.

Adolescentes podem passar mais de seis horas diante da tela

A preocupação se torna ainda maior quando o assunto são adolescentes.

Segundo Ballarini, observações sobre consumo digital indicam uma média próxima de seis horas e meia diárias diante das telas, com o TikTok ocupando uma parcela importante desse período.

Ao mesmo tempo, muitos dos conteúdos consumidos duram poucos segundos.

Isso significa que, durante horas, o cérebro pode ser exposto a uma sequência extremamente rápida de vídeos, temas e estímulos diferentes.

Bonnin, porém, argumenta que analisar apenas o tempo de tela pode ser insuficiente. Outra questão importante é descobrir quais atividades o celular está substituindo.

Se horas nas redes sociais ocupam o espaço de exercícios, caminhadas, leitura, encontros presenciais ou outras atividades, o impacto sobre a rotina pode se tornar mais significativo.

Descobrir quanto tempo você realmente usa o celular é o primeiro passo

Um dos problemas é que muitas pessoas não sabem quanto tempo passam diante do smartphone.

Ballarini afirma que existe uma diferença frequente entre a percepção dos usuários e os dados registrados pelo próprio aparelho.

Uma experiência simples consiste em estimar primeiro quantas horas por dia são dedicadas ao celular e somente depois consultar a seção de bem-estar digital do dispositivo.

A comparação pode revelar uma diferença considerável.

Outra estratégia é estabelecer regras para momentos específicos. Na casa de Ballarini, por exemplo, o telefone não participa das refeições.

Manter o aparelho fora do campo de visão também pode ajudar. Segundo o pesquisador, apenas enxergar o celular já pode consumir parte dos recursos de atenção.

Criar obstáculos pode reduzir o uso automático

Existem ainda maneiras simples de dificultar aquele movimento quase inconsciente de abrir uma rede social.

Uma delas é remover determinados aplicativos do smartphone e acessá-los apenas pelo computador. Isso adiciona uma pequena barreira entre o impulso e a ação.

Outra alternativa são ferramentas que introduzem uma pausa antes de abrir um aplicativo, perguntando ao usuário se ele realmente deseja entrar naquela plataforma.

O objetivo não é necessariamente abandonar completamente o smartphone. Afinal, ele concentra funções importantes da vida moderna.

A questão é recuperar alguns momentos nos quais pegar o celular deixa de ser uma resposta automática. Em um ambiente digital construído para oferecer sempre mais um vídeo, mais uma notificação e mais uma publicação, criar deliberadamente um ponto de parada pode ser justamente o que está faltando.

 

[ Fonte: Infobae ]

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