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A igreja esculpida no penhasco que desafia até os mais corajosos

Imagine ter que escalar um penhasco a quase 2.600 metros de altitude para chegar a uma igreja. Em Abuna Yemata Guh, na Etiópia, essa é a única forma de acesso — e é exatamente isso que faz dela um dos templos cristãos mais inacessíveis (e perigosos) do mundo.
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Tempo de leitura: 2 minutos

A Abuna Yemata Guh é uma igreja monolítica — ou seja, foi literalmente escavada na pedra. Localizada na região de Tigray, no norte da Etiópia, ela está encravada em um penhasco de arenito a 2.580 metros de altitude. Para chegar lá, não há elevador, escada rolante ou teleférico: é preciso subir a pé, com as próprias mãos e pés, enfrentando trechos verticais que exigem sangue-frio.

Essas igrejas monolíticas são uma das formas mais antigas de arquitetura religiosa. Em vez de erguer paredes, os construtores escavavam a montanha, criando templos inteiros dentro da rocha. O resultado é impressionante: interiores com cúpulas, colunas e afrescos que resistem há séculos.

Cristianismo milenar em território africano

A igreja esculpida no penhasco que desafia até os mais corajosos
© https://x.com/histories_arch

A Etiópia foi o primeiro país cristão da África e o segundo no mundo a adotar oficialmente a religião, logo depois da Armênia, no século IV. A igreja Abuna Yemata Guh foi fundada por Yemata, um dos “Nove Santos” — missionários vindos de regiões como Síria e Constantinopla para espalhar o cristianismo no país.

Hoje, a igreja pertence à Igreja Ortodoxa Etíope, que preserva tradições muito antigas. Abuna Yemata Guh é uma entre mais de 100 igrejas escavadas na rocha no norte etíope, mas se destaca por exigir uma escalada de 2.800 metros — algo que a transforma em um verdadeiro teste de fé (e de nervos).

Uma escalada para os fortes de espírito

Chegar à entrada da igreja já é, por si só, uma experiência única. Primeiro, os visitantes atravessam um estreito “ponteiro” natural de pedra, com uma queda de 250 metros para cada lado. Em seguida, enfrentam uma passarela de madeira improvisada e, depois, um trecho de escalada vertical sem equipamentos de segurança modernos.

Por ser um local sagrado, é obrigatório tirar os sapatos antes de entrar. A crença local é que as rotas são protegidas por bênçãos. O padre Assefa, devoto da igreja, garante: “Ninguém nunca morreu. Nosso santo padroeiro salva quem cai com seu vento e os devolve à cornija no meio da descida”.

Afrescos preservados por 1.500 anos

No interior, a Abuna Yemata Guh revela outro tesouro: pinturas murais do século VI feitas com pigmentos naturais misturados a gordura animal. Graças ao clima árido da região, as cores continuam vivas, retratando figuras bíblicas e parábolas com detalhes impressionantes. É como entrar em um túnel do tempo espiritual e artístico.

Herança viva nas rochas

O padre Assefa conta que seu avô também foi sacerdote da igreja, e que gerações de líderes religiosos foram enterradas entre as pedras ao redor. Segundo a tradição, o próprio São Abuna Yemata teria esculpido o templo séculos atrás, deixando um legado espiritual profundamente enraizado na montanha.

Mais do que um ponto turístico, Abuna Yemata Guh é um símbolo da resistência da fé e da cultura etíope. Escalar até ela não é apenas uma aventura física — é uma jornada histórica, espiritual e cultural.

[Fonte: La Nacion]

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