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Ciência

Por que quase todo mundo usa a mão direita? A evolução humana pode finalmente ter revelado a resposta

Um novo estudo comparou humanos, primatas atuais e ancestrais extintos para descobrir por que uma preferência aparentemente simples pode estar profundamente ligada àquilo que nos tornou humanos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Escrever, segurar um copo, arremessar uma bola ou usar talheres são ações tão automáticas que raramente pensamos sobre qual mão escolhemos. Para a maioria das pessoas, a resposta é a direita. Mas essa predominância não é tão comum entre outros primatas, levantando uma questão que intriga pesquisadores há décadas. Um novo estudo sugere que a explicação pode estar escondida em milhões de anos de evolução, envolvendo mudanças no cérebro e até na maneira como nossos ancestrais começaram a caminhar.

Humanos apresentam um padrão que não aparece da mesma forma em outros primatas

Por que quase todo mundo usa a mão direita? A evolução humana pode finalmente ter revelado a resposta
© Pexels

Uma pesquisa publicada na revista científica PLOS Biology e conduzida por pesquisadores da Universidade de Oxford investigou por que a preferência pela mão direita se tornou tão predominante entre seres humanos.

Para isso, os cientistas compararam informações de 41 espécies de macacos e grandes primatas com evidências disponíveis sobre diferentes representantes da linhagem humana.

O resultado revelou uma diferença importante.

Enquanto muitas espécies de primatas não demonstram uma preferência populacional tão pronunciada por uma das mãos, os humanos apresentam um forte predomínio da direita.

A explicação, segundo o estudo, não parece estar relacionada a uma única transformação ocorrida repentinamente em algum momento da nossa história.

O comportamento teria surgido gradualmente.

Espécies antigas, como Ardipithecus e Australopithecus, já apresentariam sinais de uma preferência discreta pela mão direita, em níveis comparáveis aos observados atualmente entre alguns grandes primatas.

Mais tarde, essa tendência teria se tornado progressivamente mais forte em integrantes do gênero Homo.

Evidências associadas ao Homo ergaster, Homo erectus e aos neandertais indicam uma intensificação dessa lateralização, até chegar ao padrão extremamente evidente encontrado no Homo sapiens moderno.

Caminhar sobre duas pernas pode ter liberado nossas mãos para algo completamente novo

Por que quase todo mundo usa a mão direita? A evolução humana pode finalmente ter revelado a resposta
© Pexels

Para compreender como essa transformação aconteceu, os pesquisadores analisaram diferentes características anatômicas dos primatas e hominínios.

Entre os fatores considerados estão o tamanho relativo do cérebro e as proporções entre braços e pernas.

A hipótese apresentada sugere um processo evolutivo dividido em duas grandes etapas.

A primeira começou quando nossos ancestrais passaram a se deslocar predominantemente sobre duas pernas.

O bipedalismo produziu uma consequência aparentemente simples, mas revolucionária: as mãos deixaram de ser essenciais para a locomoção.

Isso abriu novas possibilidades.

Com os membros superiores disponíveis, nossos ancestrais puderam utilizá-los cada vez mais para transportar objetos, manipular alimentos e, posteriormente, desenvolver atividades que exigiam movimentos extremamente precisos.

Essa liberdade teria criado novas pressões evolutivas sobre o comportamento manual.

Em outras palavras, quando as mãos deixaram de funcionar principalmente como instrumentos de deslocamento, a seleção natural encontrou espaço para especializá-las em outras tarefas.

O crescimento do cérebro pode ter reforçado a preferência pela mão direita

A segunda etapa teria ocorrido paralelamente ao desenvolvimento de capacidades cognitivas cada vez mais sofisticadas.

O aumento do cérebro e a especialização de diferentes regiões cerebrais podem ter favorecido uma lateralização mais intensa, contribuindo para que determinadas tarefas fossem realizadas preferencialmente por um dos lados do corpo.

Nesse cenário, o predomínio da mão direita não seria apenas uma curiosidade comportamental, mas parte de um conjunto de transformações associado à própria evolução humana.

Uma espécie analisada pelos pesquisadores oferece uma pista particularmente interessante.

O Homo floresiensis, pequeno hominínio descoberto na ilha de Flores, na Indonésia, apresentou uma preferência pela mão direita consideravelmente mais fraca do que aquela prevista pelos modelos.

E justamente essa espécie possuía características diferentes de outros integrantes do gênero Homo: um cérebro significativamente menor e um corpo que combinava adaptações ao deslocamento bípede com características relacionadas à escalada.

Essa exceção ajudou os pesquisadores a explorar a relação entre anatomia, tamanho cerebral e lateralidade.

Ser destro pode carregar pistas de milhões de anos da nossa história

O estudo não sugere que o bipedalismo, isoladamente, transformou nossos ancestrais em destros.

A proposta é mais complexa.

Primeiro, caminhar sobre duas pernas teria libertado as mãos de sua função locomotora. Posteriormente, mudanças no cérebro e a crescente necessidade de realizar tarefas precisas teriam reforçado gradualmente uma preferência manual já existente.

Thomas Püschel, um dos pesquisadores envolvidos no trabalho, considera que comparar diferentes espécies ajuda a separar características muito antigas dos primatas daquelas que ganharam força especificamente na linhagem humana.

Essa abordagem também mostra por que estudar comportamentos aparentemente cotidianos pode revelar capítulos importantes da evolução.

A preferência pela mão direita está presente em ações que repetimos centenas de vezes sem perceber. Mas, por trás desse automatismo, pode existir uma história iniciada milhões de anos antes do surgimento do Homo sapiens.

Quando nossos ancestrais começaram a ficar de pé, suas mãos ganharam uma liberdade inédita. Quando o cérebro se tornou mais complexo, essas mãos passaram a realizar tarefas cada vez mais sofisticadas.

E a preferência que hoje aparece quando alguém pega uma caneta, lança uma pedra ou segura uma ferramenta pode ser uma pequena herança dessa longa transformação.

[Fonte: Telecinco]

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