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Ciência

Uma mudança no comportamento desse predador da Patagônia preocupa cientistas

O cardápio improvável chamou a atenção dos cientistas — e não foi só pela cena curiosa. Na Patagônia argentina, pumas começaram a caçar pinguins dentro de um parque nacional, e essa mudança inesperada está alterando profundamente a forma como esses grandes felinos vivem, circulam e até convivem entre si.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Pumas e pinguins: uma relação que não deveria existir

Pumas são predadores solitários, territoriais e acostumados a caçar presas terrestres, como guanacos. Pinguins, por outro lado, estão longe de ser um alvo clássico. Mas foi exatamente isso que pesquisadores passaram a observar no Parque Nacional Monte León, na costa da Patagônia.

Um novo estudo publicado na revista Proceedings of the Royal Society B mostra que pumas na Patagônia estão se alimentando de pinguins-magalhães com frequência — e essa abundância de comida está mudando regras básicas do comportamento da espécie.

Segundo os autores, os pumas que caçam pinguins se encontram muito mais entre si do que o normal. E, de forma ainda mais surpreendente, parecem tolerar esses encontros, algo raro para um animal conhecido por evitar rivais.

Como o “rewilding” criou um cenário totalmente novo

Uma mudança no comportamento desse predador da Patagônia preocupa cientistas
© https://x.com/Morera_Lucas

Para entender essa história, é preciso voltar algumas décadas. Ao longo do século 20, a expansão da pecuária na Patagônia expulsou pumas de grandes áreas da região. Com menos predadores, várias espécies ajustaram seu comportamento.

Tudo começou a mudar em 2004, com a criação do Parque Nacional Monte León. A partir daí, os pumas passaram a retornar. Mas o ambiente que encontraram já não era o mesmo de antes.

Durante o período em que os felinos estavam ausentes, uma colônia continental de pinguins-magalhães se estabeleceu na região — algo incomum, já que a espécie costuma se reproduzir em ilhas. Essa colônia cresceu rapidamente e hoje reúne cerca de 40 mil pares reprodutivos.

O resultado? Um verdadeiro “buffet” concentrado de presas fáceis para os pumas.

O que os dados revelam sobre os pumas caçando pinguins

Entre 2019 e 2023, os pesquisadores combinaram armadilhas fotográficas, colares de GPS e visitas a locais de predação para mapear o comportamento dos pumas na Patagônia.

Ao todo, 14 pumas foram monitorados. Nove deles passaram a caçar pinguins regularmente. Cinco não. A diferença de comportamento entre os grupos foi clara.

Durante a temporada de reprodução dos pinguins, os pumas caçadores permaneciam próximos à colônia. Quando os pinguins migravam para o mar, esses mesmos pumas ampliavam seu território — chegando a dobrar a área percorrida.

Mas o dado mais surpreendente veio das interações entre os próprios felinos.

Quando a comida é abundante, a rivalidade diminui

Os pesquisadores registraram 254 encontros entre pares de pumas que caçavam pinguins. Já entre pumas que não incluíam pinguins na dieta, foram apenas quatro encontros registrados.

A maioria dessas interações aconteceu a menos de um quilômetro da colônia. Em outras palavras: onde havia comida em excesso.

A explicação parece simples e poderosa. Quando o alimento é abundante, concentrado e previsível, a necessidade de defender grandes territórios diminui. A competição cai — e até a intolerância entre rivais se suaviza.

Não por acaso, a densidade de pumas dentro do parque ultrapassou mais que o dobro do maior registro já feito anteriormente na Argentina.

Um alerta para a conservação moderna

Esse caso mostra que restaurar predadores não significa “voltar ao passado”. O retorno dos pumas criou um ecossistema novo, com interações que provavelmente nunca existiram antes.

“Restaurar a vida selvagem em paisagens alteradas pelo ser humano não é simplesmente rebobinar o ecossistema”, explicou um dos autores do estudo. “Isso pode gerar novas interações que mudam o comportamento animal de formas inesperadas.”

Para especialistas em conservação, o recado é claro: políticas baseadas apenas em cenários históricos podem falhar. É preciso entender como os animais realmente se comportam hoje, em ambientes já profundamente transformados pela ação humana.

E o impacto sobre os pinguins?

A grande colônia atual provavelmente não corre risco imediato. Mas os cientistas alertam que colônias menores, que tentem se estabelecer no continente, podem sofrer mais com a predação.

O dilema é complexo: trata-se de duas espécies nativas interagindo de uma forma que só se tornou possível após décadas de intervenção humana indireta.

O que vem agora

Os pesquisadores agora querem entender como essa relação entre pumas e pinguins afeta o restante da cadeia alimentar. Uma das perguntas-chave é se os pinguins estão “aliviando” a pressão sobre outras presas, como o guanaco — ou se estão redesenhando toda a dinâmica do ecossistema.

A história dos pumas na Patagônia deixa um alerta poderoso: a natureza não volta ao ponto inicial. Quando um predador retorna, ele não encontra o passado — encontra um mundo novo. E aprende a sobreviver nele de formas que ninguém esperava.

[Fonte: Click petroleo e gas]

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