O debate sobre a origem da consciência sempre dividiu cientistas, filósofos e espiritualistas. Agora, um estudo publicado na revista AIP Advances reacende a discussão ao propor uma ideia ousada: a consciência não seria um produto da atividade cerebral, mas o próprio “tecido fundamental” do universo. A física Maria Strømme, da Universidade de Uppsala, sugere que nossas experiências individuais seriam apenas manifestações temporárias desse campo universal. A seguir, o que essa teoria realmente propõe — e por que ela é tão revolucionária.
Uma consciência que precede o universo: o coração da hipótese

Segundo Strømme, a consciência não emerge da matéria; ocorre exatamente o inverso. A matéria — assim como o espaço e o tempo — seria resultado da diferenciação de um campo de consciência fundamental.
A pesquisadora compara a consciência individual a uma onda no oceano: a forma aparece e desaparece, mas o “oceano” permanece. Nesse cenário, a morte não representa o fim da consciência, apenas o retorno ao campo universal subjacente.
A teoria baseia-se em princípios da física quântica, especialmente na ideia de que partículas são excitações de campos fundamentais. A autora propõe que a própria consciência seja esse campo primordial.
Consciência como campo quântico: uma visão baseada na física

O modelo de Strømme dialoga com conceitos da física quântica e da filosofia não dual, que entende a realidade como uma unidade indivisível. Em sua formulação, o universo teria existido inicialmente como uma superposição universal sem forma, contendo todas as possibilidades. Nada estava diferenciado: nem espaço, nem tempo, nem matéria — tampouco um “eu” separado do mundo.
A diferenciação surgiria quando esse campo primordial colapsa em estados específicos, num processo semelhante ao colapso quântico observado em experimentos como o famoso “gato de Schrödinger”.
Strømme descreve esse colapso como um “ato criativo atemporal da mente universal”, não um evento cronológico, já que o tempo ainda não existiria nessa fase inicial.
Telepatia, mediunidade e experiências de quase morte: o que a teoria permite (mas ainda não prova)
Embora controversa, a hipótese abre portas para que fenômenos tidos como pseudocientíficos possam ser reavaliados sob uma nova ótica.
Segundo a pesquisadora, se o cérebro não gera a consciência, mas apenas a “sintoniza”, então:
- experiências de quase morte poderiam representar acesso incomum ao campo universal;
- pensamentos poderiam se comunicar através desse campo, explicando relatos de telepatia;
- memórias e percepções além do corpo poderiam ser possíveis em estados alterados de consciência.
A teoria sugere que indivíduos mais sensíveis ou em condições específicas poderiam captar informações não locais — algo que a física quântica descreve em outros contextos, como o emaranhamento.
Strømme destaca, porém, que as evidências atuais são inconclusivas, e esses fenômenos exigiriam testes rigorosos antes de qualquer validação científica.
Uma teoria que ecoa tradições filosóficas — e físicos como Bohm, Planck e Schrödinger
Apesar de formulada matematicamente, a proposta se aproxima de tradições espirituais e filosóficas como:
- Advaita Vedanta,
- conceitos budistas sobre o vazio,
- misticismo sufista,
- noções cristãs de unidade espiritual.
Strømme menciona ainda paralelos com ideias de grandes físicos:
- o “ordem implicada” de David Bohm, que descreve uma realidade profunda não local;
- o “universo participativo” de John Wheeler, em que a observação ajuda a moldar o real;
- reflexões de Schrödinger e Heisenberg sobre consciência e matéria.
Segundo ela, “textos religiosos antigos descrevem uma consciência interconectada usando metáforas, e os primeiros físicos quânticos chegaram a conclusões semelhantes por vias científicas”.
Um possível novo paradigma — ou apenas uma hipótese provocativa?
Strømme reconhece que sua proposta desafia a visão tradicional de que a matéria é o fundamento do universo. Em seu modelo, a matéria é secundária — uma representação derivada do campo consciente.
A pesquisadora acredita que mudanças radicais já ocorreram na história científica — como a aceitação de que a Terra é esférica ou de que gira em torno do Sol — e que novos avanços podem alterar novamente nossa percepção do real.
O impacto potencial é imenso:
se a consciência for realmente universal, a distinção entre mente e matéria, vida e morte, indivíduo e cosmos teria de ser completamente reavaliada.
Por enquanto, trata-se de uma teoria ousada, matematicamente estruturada, mas ainda longe de ser confirmada. Ainda assim, o trabalho de Strømme abre a porta para um diálogo raro entre física, filosofia e espiritualidade — e para repensar, com mais profundidade, o que significa estar vivo e consciente no universo.
[ Fonte: El Confidencial ]