A divulgação de um documento secreto produzido por Washington reacendeu um debate que parecia estar contido: até onde a Ucrânia está disposta a ceder para alcançar um acordo? A reação imediata de Kiev, seguida por contatos urgentes com capitais europeias, mostrou que algumas propostas ultrapassam limites considerados inegociáveis. Ao mesmo tempo, o Kremlin aproveitou o momento para aumentar a pressão, transformando uma negociação delicada em um teste geopolítico para todo o continente.
Ucrânia rejeita concessões e reafirma suas “linhas vermelhas”
O secretário do Conselho de Segurança Nacional ucraniano, Rustem Umerov, afirmou que Kiev não aceitará qualquer acordo que viole três pilares essenciais: integridade territorial, soberania plena e segurança da população.
A resposta veio após o vazamento de um documento de 28 pontos elaborado pelos Estados Unidos, contendo propostas que incluem limitações militares e redefinições territoriais.
Umerov deixou claro que nenhuma negociação será possível se tocar no que considera fundamentos da existência do Estado ucraniano.
Zelensky mobiliza líderes europeus diante do impacto da proposta
A tensão levou Volodymyr Zelensky a conversar com aliados-chave: Emmanuel Macron, Friedrich Merz e Keir Starmer.
Os líderes concordaram que a proteção dos interesses ucranianos e europeus deve ser prioridade absoluta.
Zelensky indicou que está trabalhando com Washington para reformular o texto, classificando o plano original como “inaceitável” em vários pontos. Para ele, qualquer acordo deve ser digno e garantir uma paz verdadeira — não uma imposição que favoreça Moscou.
A posição europeia: nenhum acordo sem a voz de Kiev
Ursula von der Leyen reafirmou a diretriz central da União Europeia: “Nada sobre a Ucrânia sem a Ucrânia.”
António Costa disse não ter recebido confirmação oficial sobre o documento, mas garantiu que o bloco seguirá alinhado aos princípios da ONU.
Entre os itens mais controversos estão: limitar o exército ucraniano a 600 mil soldados, renunciar à entrada na OTAN e abandonar áreas do Donbass que ficariam desmilitarizadas e, na prática, sob controle russo.
Moscou aumenta a pressão e tenta influenciar o debate
O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, afirmou que Zelensky deveria negociar imediatamente para evitar “perdas territoriais maiores”.
Embora tenha negado ter recebido o plano dos EUA, deixou implícito que várias condições vazadas seriam bem-vindas para Moscou.
Analistas interpretaram a mensagem como uma tática de pressão psicológica em meio ao caos diplomático.
Um equilíbrio geopolítico cada vez mais instável
O episódio expôs divergências entre EUA, Europa, Ucrânia e Rússia no momento mais sensível das negociações.
Para Kiev, aceitar certas condições seria abrir mão do próprio futuro político.
Para Washington, é uma tentativa de evitar uma guerra prolongada.
Para a Europa, é vital impedir decisões unilaterais que comprometam a segurança regional.
E para Moscou, qualquer fissura é uma vitória estratégica.
O conflito entra agora em uma fase onde cada declaração pesa — e cada vazamento pode mudar tudo.