A possibilidade de que a vida tenha viajado entre planetas sempre esteve entre as hipóteses mais intrigantes da ciência. Durante décadas, essa ideia parecia esbarrar em obstáculos quase impossíveis de superar, principalmente a violência dos impactos capazes de lançar rochas ao espaço. Agora, uma nova pesquisa mostra que alguns microrganismos podem resistir justamente ao momento considerado mais destrutivo dessa jornada, abrindo novas perspectivas para entender como a vida pode se espalhar pelo Universo.
Um microrganismo surpreendeu os cientistas ao resistir a um teste extremo
Entre as diversas teorias que tentam explicar como a vida pode existir além da Terra, uma das mais conhecidas é a litopanspermia. Essa hipótese sugere que microrganismos poderiam viajar protegidos no interior de fragmentos de rocha lançados ao espaço após colisões de grandes asteroides com planetas.
Embora essa possibilidade seja debatida há décadas, sempre existiu uma dúvida fundamental: algum ser vivo conseguiria sobreviver ao impacto necessário para arrancar essas rochas da superfície de um planeta?
Foi justamente essa questão que motivou pesquisadores da Universidade Johns Hopkins a realizar um experimento recentemente publicado na revista científica PNAS Nexus. Para o estudo, a equipe escolheu um organismo conhecido por desafiar os limites da sobrevivência: a bactéria Deinococcus radiodurans.
Essa bactéria ganhou fama entre os cientistas por suportar condições que seriam fatais para praticamente qualquer outro organismo. Ela consegue sobreviver a doses extremamente elevadas de radiação, resiste à desidratação intensa e possui uma extraordinária capacidade de reconstruir seu próprio DNA mesmo após sofrer danos severos.
Essas características fazem dela um dos principais modelos utilizados em pesquisas sobre astrobiologia e sobrevivência em ambientes extraterrestres.
Para reproduzir um cenário semelhante ao de um impacto meteorítico, os pesquisadores desenvolveram um experimento bastante incomum. As bactérias foram posicionadas entre placas metálicas e submetidas ao impacto de um projétil disparado por uma pistola de gás de alta velocidade.
A colisão gerou pressões variando entre 1 e 3 gigapascais (GPa), valores muito superiores aos encontrados naturalmente na superfície terrestre. Como comparação, a pressão existente no fundo da Fossa das Marianas, o ponto mais profundo dos oceanos, corresponde a apenas uma pequena fração desse valor.
Após cada teste, os cientistas analisaram cuidadosamente as amostras para verificar quantas bactérias permaneciam vivas.

Os resultados reforçam uma hipótese fascinante sobre a origem da vida
O desempenho do microrganismo surpreendeu até mesmo os responsáveis pelo estudo. Em pressões próximas de 1,4 GPa, praticamente todas as bactérias sobreviveram. Mesmo quando o impacto foi intensificado para cerca de 2,4 GPa, aproximadamente 60% dos organismos continuavam viáveis.
Somente em níveis ainda mais elevados começaram a surgir danos significativos, como rompimento das membranas celulares e comprometimento das estruturas internas.
Segundo os pesquisadores, a expectativa inicial era que as bactérias fossem destruídas logo nos primeiros experimentos. Em vez disso, elas continuaram sobrevivendo mesmo após sucessivos aumentos na intensidade dos impactos, obrigando a equipe a elevar continuamente a velocidade do projétil.
Esse resultado não comprova que a vida realmente viaja entre planetas, mas elimina um dos maiores obstáculos para essa hipótese. Estudos indicam que impactos capazes de lançar fragmentos da superfície de Marte ao espaço podem produzir pressões de até 5 GPa. Como nem todas as rochas sofrem exatamente a mesma intensidade de choque, a sobrevivência observada no laboratório amplia significativamente as possibilidades de que alguns microrganismos resistam ao processo.
Caso isso realmente aconteça, fragmentos rochosos poderiam carregar formas microscópicas de vida durante milhões de anos pelo espaço, até eventualmente alcançarem outro planeta.
Além das implicações para a origem da vida, a pesquisa também chama atenção para outro desafio importante: a proteção planetária. Agências espaciais adotam protocolos rigorosos para impedir que sondas transportem microrganismos terrestres para outros mundos. Se certas bactérias conseguem resistir a impactos tão violentos, talvez também suportem parte das condições enfrentadas durante missões espaciais.
Os pesquisadores pretendem continuar os estudos utilizando outros tipos de bactérias e até fungos para descobrir se essa resistência extrema é mais comum do que se imaginava.
A resposta definitiva sobre a litopanspermia ainda está distante. No entanto, a descoberta reforça uma ideia cada vez mais intrigante: talvez a vida seja muito mais resistente, adaptável e capaz de cruzar o espaço do que a ciência acreditava até poucos anos atrás.