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Ciência

IA revela sinais ocultos na Falha de San Andreas que podem aproximar cientistas da previsão de terremotos

Pesquisadores usaram inteligência artificial para identificar movimentos tectônicos quase imperceptíveis ao longo da Falha de San Andreas. A descoberta reforça a hipótese de que esses deslizamentos lentos podem influenciar terremotos e abrir novos caminhos para entender como grandes abalos sísmicos começam.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Prever terremotos continua sendo um dos maiores desafios da geofísica. Até hoje, o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) afirma que não existe nenhuma tecnologia capaz de antecipar com precisão quando ocorrerá um grande tremor.

Um novo estudo, porém, aproxima os cientistas desse objetivo. Utilizando inteligência artificial para analisar anos de medições realizadas na Falha de San Andreas, na Califórnia, pesquisadores descobriram eventos de deslizamento lento que haviam passado despercebidos. Os resultados, publicados na revista Nature Communications, sugerem que esses movimentos podem estar ligados aos chamados terremotos de baixa frequência, considerados importantes indicadores da dinâmica interna das falhas geológicas.

Inteligência artificial encontrou padrões invisíveis aos métodos tradicionais

A equipe liderada pela geofísica e sismóloga Zahra Zali analisou aproximadamente oito anos de dados coletados entre 2009 e 2016 na região de Parkfield, um dos trechos mais monitorados da Falha de San Andreas.

As informações vieram de sensores instalados em perfurações profundas capazes de medir deformações extremamente pequenas nas rochas.

Esses instrumentos registram alterações que ocorrem em escalas de segundos até várias semanas, preenchendo uma lacuna entre os dados obtidos por sismógrafos e sistemas de GPS de alta precisão.

O enorme volume de informações tornou a inteligência artificial essencial para identificar padrões que dificilmente seriam detectados por análises convencionais.

Segundo Zali, o objetivo era descobrir se processos lentos de deformação permaneciam escondidos em anos de medições contínuas.

A IA conseguiu reconhecer essas assinaturas e revelou diversos eventos até então desconhecidos.

O que são os deslizamentos lentos?

Quando a tensão acumulada entre placas tectônicas é liberada, isso pode acontecer de duas formas.

A mais conhecida ocorre rapidamente, produzindo terremotos capazes de gerar fortes ondas sísmicas.

A outra acontece de forma gradual.

Conhecidos como deslizamentos lentos ou slow-slip events, esses movimentos podem durar desde alguns minutos até vários meses e praticamente não produzem vibrações detectáveis na superfície.

Por essa razão, permaneceram pouco compreendidos durante décadas.

Até poucos anos atrás, muitos especialistas acreditavam que tanto esses eventos quanto os terremotos de baixa frequência simplesmente não existiam.

Os movimentos lentos parecem estar ligados aos terremotos de baixa frequência

Após analisar os dados, os pesquisadores identificaram 92 eventos de deslizamento lento.

Ao comparar essas informações com o catálogo sísmico da região, encontraram uma forte coincidência temporal entre esses movimentos e terremotos de baixa frequência registrados em um raio de até 10 quilômetros e profundidades inferiores a 20 quilômetros.

Durante o mesmo período, foram catalogados cerca de 500 mil desses pequenos terremotos.

Segundo os autores, os resultados indicam que os deslizamentos lentos não são fenômenos isolados, mas fazem parte do processo de redistribuição das tensões ao longo das falhas tectônicas.

Essa relação pode ajudar os cientistas a compreender melhor como a energia se acumula antes de um grande terremoto.

A descoberta pode transformar a sismologia

Nos últimos anos, o estudo dos deslizamentos lentos passou a ser considerado uma das áreas mais promissoras da pesquisa sísmica.

Diversos especialistas descrevem esse avanço como uma verdadeira revolução na compreensão dos terremotos, já que esses movimentos silenciosos podem influenciar ou até desencadear grandes rupturas tectônicas.

Ainda assim, os pesquisadores fazem um alerta importante.

O estudo não significa que agora seja possível prever terremotos.

Atualmente, nenhum método consegue indicar com precisão quando e onde ocorrerá um grande abalo sísmico.

O que a pesquisa demonstra é que existem processos subterrâneos relevantes acontecendo entre um terremoto e outro, muitos deles invisíveis aos métodos tradicionais de monitoramento.

O próximo passo é expandir a análise para outras falhas geológicas

Agora, a equipe pretende aplicar a mesma metodologia baseada em inteligência artificial em outras falhas ao redor do mundo.

O objetivo é verificar se essa relação entre deslizamentos lentos e terremotos de baixa frequência também aparece em diferentes contextos geológicos.

Se os resultados forem confirmados, os cientistas poderão construir modelos muito mais completos sobre a evolução das tensões na crosta terrestre.

Segundo Zahra Zali, muitos dos processos mais importantes que ocorrem nas falhas geológicas não provocam terremotos destrutivos.

Detectar esses sinais ocultos permitirá compreender com muito mais precisão como as tensões se acumulam e se propagam pela crosta terrestre, aproximando a ciência de um objetivo perseguido há mais de um século: entender os verdadeiros sinais que antecedem os grandes terremotos.

 

 

 

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