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Ciência

O que aconteceu sob a Antártida mudou o clima do planeta inteiro, dizem cientistas

Um novo estudo revela que o gelo da Antártida pode ter surgido por um motivo muito diferente do que os cientistas imaginavam. A explicação envolve forças ocultas da Terra que atuaram por milhões de anos.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Hoje, a Antártida é sinônimo de gelo, frio extremo e paisagens completamente brancas. No entanto, nem sempre foi assim. Muito antes de se tornar o continente congelado que conhecemos, ela fazia parte de um planeta muito mais quente. Durante décadas, os cientistas tentaram entender por que justamente a Antártida congelou milhões de anos antes do Ártico. Agora, uma nova pesquisa apresenta uma explicação que começa muito abaixo da superfície terrestre.

Antes do gelo dominar a Antártida, o próprio continente precisou mudar

O novo estudo, publicado na revista Science, sugere que o surgimento da enorme camada de gelo antártica não aconteceu apenas porque o clima global esfriou ou porque a concentração de dióxido de carbono diminuiu. Segundo os pesquisadores, a geologia profunda teve um papel decisivo ao preparar o terreno para que o gelo pudesse se estabelecer.

A pesquisa indica que a Antártida Oriental passou por um longo processo de elevação do relevo ao longo de dezenas de milhões de anos. Muito antes de o continente congelar, grandes áreas começaram a ganhar altitude devido a movimentos lentos que ocorriam nas profundezas do manto terrestre.

Essa transformação começou ainda durante a fragmentação do antigo supercontinente Gondwana, quando a separação entre África e Antártida desencadeou mudanças geológicas capazes de modificar completamente a paisagem.

Com o passar do tempo, surgiram extensos planaltos, grandes escarpas costeiras e enormes cadeias montanhosas. Entre elas estão as misteriosas Montanhas Gamburtsev, uma cordilheira que permanece completamente escondida sob quilômetros de gelo.

Embora invisíveis na superfície, essas montanhas podem ter sido o elemento que mudou a história climática do planeta.

Os modelos computacionais utilizados pelos pesquisadores mostram que, cerca de 45 milhões de anos atrás, boa parte da região já havia ultrapassado aproximadamente dois quilômetros de altitude. Esse detalhe fez toda a diferença.

Quanto maior a altitude, menores são as temperaturas. Nessas condições, a neve acumulada durante o inverno deixa de derreter completamente no verão. Com o passar dos séculos, essa neve vai sendo compactada até formar geleiras, que crescem continuamente e acabam originando gigantescas camadas de gelo.

Sob A Antártida1
© Matt Palmer

O interior da Terra preparou o cenário para a glaciação muito antes do clima mudar

Os cientistas atribuem esse processo a um fenômeno conhecido como ondas do manto. Apesar do nome, não se trata de ondas semelhantes às do oceano, mas de movimentos extremamente lentos que ocorrem nas profundezas do planeta quando placas tectônicas se rompem e começam a se afastar.

Essas perturbações provocam o desprendimento de materiais mais densos localizados na base da crosta continental. Ao perder parte desse peso, a superfície tende a subir gradualmente, elevando regiões inteiras ao longo de milhões de anos.

Segundo as simulações apresentadas no estudo, quando o clima global começou a esfriar há aproximadamente 34 milhões de anos, a Antártida já possuía praticamente todas as condições geográficas necessárias para manter neve permanente. Estima-se que quase 90% da Antártida Oriental já estivesse acima da altitude mínima necessária para conservar gelo durante todo o ano.

Essa vantagem não existia no hemisfério norte. Enquanto a Antártida é um continente localizado sobre terra firme, o Ártico está centrado sobre um oceano, sem uma extensa plataforma elevada capaz de favorecer a formação rápida de grandes mantos de gelo.

Os pesquisadores também ressaltam que a redução do dióxido de carbono continuou sendo um fator essencial para o resfriamento global. No entanto, ela sozinha não explica por que a Antártida congelou milhões de anos antes das grandes glaciações do hemisfério norte.

Depois que o gelo começou a se expandir, entrou em ação outro mecanismo importante: o efeito albedo. Como o gelo reflete uma quantidade muito maior de luz solar do que rochas ou vegetação, o continente passou a absorver menos calor, favorecendo um resfriamento ainda maior. Ao mesmo tempo, temperaturas mais baixas reduziram a quantidade de vapor d’água na atmosfera, enfraquecendo um dos principais gases responsáveis pelo efeito estufa.

O estudo reforça uma das principais lições da climatologia moderna: grandes mudanças no clima não dependem apenas da atmosfera. Elas resultam da interação entre processos geológicos, movimentos do interior da Terra, relevo, oceanos e composição atmosférica.

No caso da Antártida, tudo indica que o gelo só conseguiu dominar o continente porque a própria Terra passou milhões de anos preparando silenciosamente o cenário. Quando as condições climáticas finalmente mudaram, o terreno já estava pronto para transformar uma região relativamente comum no maior reservatório de gelo do planeta.

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