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Ciência

A rotação da Terra está diminuindo — e isso pode estar aumentando o oxigênio que respiramos

Novas pesquisas sugerem que os dias mais longos ao longo da história do planeta permitiram que certos microrganismos produzissem mais oxigênio. A rotação da Terra influencia diretamente um dos elementos essenciais à vida como a conhecemos.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A Terra gira cada vez mais devagar — e isso tem consequências surpreendentes. Embora imperceptível para os seres humanos em uma única geração, esse ritmo mais lento de rotação tem, ao longo de bilhões de anos, estendido a duração dos dias e, segundo cientistas, pode ter contribuído para o aumento do oxigênio na atmosfera.

Dias mais longos e mais oxigênio

Nosso planeta se formou há cerca de 4,5 bilhões de anos e, desde então, sua rotação vem desacelerando. O resultado? Dias progressivamente mais longos. E esse detalhe aparentemente banal pode ter sido crucial para a evolução da vida.

Segundo um estudo publicado na Nature Geoscience em 2021, há uma ligação direta entre o alongamento dos dias e a oxigenação da atmosfera. As cianobactérias — organismos fotossintéticos que surgiram há cerca de 2,4 bilhões de anos — passaram a ter mais tempo de luz solar para produzir oxigênio como subproduto do seu metabolismo.

“O ritmo da rotação da Terra — ou seja, a duração dos dias — pode ter influenciado diretamente o padrão e o momento da oxigenação da atmosfera terrestre”, explica o microbiologista Gregory Dick, da Universidade de Michigan.

Quando os dias duravam apenas 18 horas

Há cerca de 1,4 bilhão de anos, um dia na Terra tinha apenas 18 horas. Já há 70 milhões de anos, os dias eram cerca de meia hora mais curtos do que hoje. Isso é resultado de um processo contínuo: a Lua, ao exercer força gravitacional sobre a Terra, está gradualmente se afastando e, com isso, desacelerando a rotação do planeta. A estimativa atual é de um ganho de 1,8 milissegundos por século na duração dos dias.

Essa desaceleração teria sido determinante durante o chamado Grande Evento de Oxidação, quando as cianobactérias produziram oxigênio em larga escala, alterando drasticamente a composição da atmosfera. Sem esse evento, acreditam os cientistas, a vida complexa como conhecemos talvez nunca tivesse surgido.

O “tapete” de microrganismos no fundo do lago

Rotacion Tierra
© Freepik

Embora ainda haja muitas dúvidas sobre por que e quando exatamente esse aumento de oxigênio ocorreu, cientistas buscaram pistas em ambientes que se assemelham ao passado da Terra. Um exemplo é o sumidouro de Middle Island, no lago Huron, nos Estados Unidos.

Ali, no leito do lago, crescem tapetes microbianos compostos por microrganismos semelhantes às antigas cianobactérias. Eles se organizam em camadas: à noite, microrganismos brancos sobem à superfície para metabolizar enxofre. Com a chegada do sol, eles recuam e dão lugar às cianobactérias roxas, que então realizam a fotossíntese e produzem oxigênio.

No entanto, esse processo não é imediato. “As cianobactérias demoram a se ativar pela manhã”, observou o oceanógrafo Brian Arbic, da Universidade de Michigan. “Elas não são muito madrugadoras.”

A importância do tempo de sol para a fotossíntese

Esse “atraso matinal” limita a janela de tempo durante o dia em que as cianobactérias podem efetivamente gerar oxigênio. Com dias mais curtos, há menos tempo útil para a fotossíntese. Já com o aumento da duração do dia ao longo de bilhões de anos, esses organismos puderam produzir mais oxigênio.

Essa hipótese levou Arbic e seus colegas a investigar a relação entre a rotação da Terra e a taxa de fotossíntese microbiana ao longo da história geológica do planeta. A conclusão: dias mais longos podem ter permitido um salto na oxigenação do planeta.

Um planeta em constante transformação

A ideia de que a rotação da Terra influencia diretamente na produção de oxigênio mostra como fatores astronômicos e biológicos estão profundamente interligados. À medida que o dia se alongava, as condições para a vida se tornavam mais favoráveis — em parte, graças ao trabalho lento e constante de bilhões de cianobactérias.

Pode parecer um detalhe ínfimo, mas a desaceleração da Terra ajudou a transformar a atmosfera e, com ela, o destino da vida no planeta.

 

Fonte: Meteored

 

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