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Ciência

Astrônomos encontram evidência rara de uma estrela semelhante ao Sol que pode ter devorado um planeta inteiro — e o lítio entregou o segredo

Uma estrela localizada a cerca de 1.300 anos-luz da Terra chamou a atenção dos cientistas por um motivo incomum: ela contém muito mais lítio do que deveria. A descoberta pode representar uma das evidências mais convincentes de que uma estrela semelhante ao Sol engoliu um de seus próprios planetas.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O destino dos planetas quando suas estrelas envelhecem continua sendo uma das questões mais fascinantes da astronomia. À medida que as estrelas evoluem, expandem-se e alteram profundamente a dinâmica de seus sistemas planetários. Mas o que acontece com os mundos que orbitam ao seu redor? Em alguns casos, eles podem sobreviver. Em outros, talvez sejam consumidos pela própria estrela.

Agora, um grupo internacional de pesquisadores encontrou fortes indícios de que esse processo ocorreu em um sistema localizado a aproximadamente 1.300 anos-luz da Terra. O estudo, publicado no periódico The Astrophysical Journal, analisou a estrela TOI-5882 e revelou uma concentração anormalmente elevada de lítio em sua atmosfera, uma assinatura química que pode indicar a recente absorção de material planetário.

O elemento químico que não deveria estar ali

Para investigar a composição de uma estrela, os astrônomos utilizam espectrógrafos, instrumentos capazes de decompor a luz emitida pelo astro em diferentes comprimentos de onda. Cada elemento químico deixa uma espécie de impressão digital nesse espectro, permitindo que os cientistas descubram quais substâncias estão presentes e em quais quantidades.

Foi justamente durante esse processo que TOI-5882 começou a se destacar.

Os pesquisadores identificaram uma quantidade de lítio muito superior ao esperado para uma estrela com suas características. Quando comparada a outras estrelas semelhantes em massa, temperatura e idade, TOI-5882 apresentou níveis mais altos do que cerca de 98% dos objetos analisados.

A descoberta chamou atenção porque o lítio tende a ser destruído gradualmente no interior das estrelas ao longo de bilhões de anos. Em estrelas maduras, encontrar grandes quantidades desse elemento na atmosfera costuma ser algo incomum.

Segundo Melinda Soares-Furtado, pesquisadora da Universidade de Wisconsin e coautora do estudo, a diferença observada é consistente independentemente do método estatístico utilizado. Em todas as análises, TOI-5882 aparecia entre os casos mais extremos de enriquecimento por lítio.

A hipótese de um planeta engolido

Astrônomos Encontraram Um Planeta Do Tamanho Da Terra Em Um Sistema Que Pode Sobreviver Por 100 Bilhões De Anos
© NASA/JPL-Caltech

Diante da anomalia química, os cientistas passaram a investigar possíveis explicações.

Uma das hipóteses mais fortes é que a estrela tenha absorvido recentemente um planeta. Quando um corpo planetário mergulha na atmosfera estelar, seus elementos químicos são incorporados às camadas externas da estrela. Entre esses elementos está justamente o lítio, abundante em materiais rochosos e planetários.

O pesquisador Seth Jacobson, da Universidade Estadual de Michigan, comparou o fenômeno à chegada de uma multidão a um estádio. Pode haver algumas pessoas presentes inicialmente, mas a entrada de milhares de novos torcedores rapidamente altera a composição do público. Da mesma forma, a chegada de grandes quantidades de material planetário pode transformar temporariamente a assinatura química de uma estrela.

Os cálculos indicam que o objeto engolido possuía uma massa situada entre nove e 95 vezes a da Terra, dependendo de sua composição. Isso sugere um planeta maior que a Terra, mas provavelmente menor que Netuno.

Investigação digna de um trabalho de detetive

Antes de aceitar a hipótese do engolimento planetário, a equipe precisou descartar outras possibilidades.

Os pesquisadores compararam TOI-5882 com 61 estrelas quase gêmeas usando dados do catálogo estelar GALAH DR4, uma das bases mais completas atualmente disponíveis para estudos químicos de estrelas.

Além disso, verificaram se o astro poderia simplesmente ser mais jovem do que aparenta. Estrelas jovens costumam apresentar níveis elevados de lítio porque ainda não tiveram tempo suficiente para destruí-lo em seus interiores.

No entanto, TOI-5882 não exibe nenhuma das características típicas da juventude estelar. Ela não apresenta excesso de emissão infravermelha, atividade magnética incomum nem rotação acelerada. Todos os indícios apontam para uma estrela madura, tornando ainda mais difícil explicar o excesso de lítio por processos naturais convencionais.

Uma anã marrom pode ter causado o desastre

O sistema possui outro elemento intrigante: uma anã marrom orbitando muito próxima da estrela.

As anãs marrons ocupam uma categoria intermediária entre planetas gigantes e estrelas. Elas possuem massa superior à de Júpiter, mas insuficiente para sustentar as reações nucleares que caracterizam uma estrela verdadeira.

Segundo os pesquisadores, a presença desse objeto massivo pode ter desestabilizado as órbitas de outros corpos do sistema ao longo de milhões de anos. Em um cenário possível, um planeta teria sido gradualmente empurrado para uma trajetória fatal, aproximando-se cada vez mais da estrela até ser completamente destruído.

O que essa descoberta revela sobre o futuro dos sistemas planetários

Formação Dos Planetas1
© ESA

Embora os cientistas já suspeitassem que estrelas possam engolir seus próprios planetas, observar evidências diretas desse processo é extremamente difícil. Esses eventos acontecem em escalas de tempo relativamente curtas quando comparadas à vida de uma estrela e raramente são registrados em tempo real.

Por isso, as pistas químicas deixadas pelo lítio funcionam como fósseis cósmicos. Elas permitem reconstruir acontecimentos violentos ocorridos há milhares ou milhões de anos.

A descoberta de TOI-5882 também levanta novas questões. Durante a pesquisa, os astrônomos encontraram outras estrelas com níveis incomuns de lítio, sugerindo que o engolimento planetário pode ser mais comum do que se imaginava ou que ainda existam mecanismos desconhecidos capazes de produzir o mesmo efeito.

Cada nova observação ajuda a desvendar a história oculta dos sistemas planetários da Via Láctea. E, ao que tudo indica, alguns desses sistemas tiveram finais muito mais dramáticos do que os astrônomos imaginavam.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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