Durante mais de um século, um dos experimentos mais famosos da psicologia animal ajudou a moldar nossa compreensão da inteligência. No início do século XX, o psicólogo alemão Wolfgang Köhler demonstrou que chimpanzés eram capazes de empilhar caixas para alcançar alimentos fora de seu alcance, resolvendo espontaneamente um problema que nunca haviam enfrentado antes.
Desde então, esse tipo de comportamento passou a ser considerado um dos exemplos clássicos de resolução criativa de problemas. Por muito tempo, acreditou-se que apenas humanos e alguns vertebrados com cérebros relativamente grandes possuíam capacidades cognitivas suficientes para realizar tarefas desse tipo.
Agora, uma nova pesquisa realizada na Finlândia está colocando essa ideia em xeque.
Cientistas das universidades de Oulu, Helsinque e Turku descobriram que abelhões (Bombus terrestris), insetos cujo cérebro tem aproximadamente o tamanho de uma semente de gergelim, conseguem resolver problemas inéditos utilizando objetos como ferramentas, mesmo sem treinamento específico para isso.
Uma versão em miniatura do famoso teste dos chimpanzés

Os pesquisadores desenvolveram um experimento inspirado diretamente no clássico desafio da caixa e da banana utilizado com chimpanzés.
Primeiro, os abelhões aprenderam que uma flor artificial azul continha uma recompensa açucarada. Em seguida, os cientistas modificaram o cenário: a flor foi posicionada no teto de uma arena transparente, fora do alcance dos insetos.
No local havia também uma pequena bola de poliestireno.
Para alcançar a recompensa, os abelhões precisavam mover a bola até a posição correta sob a flor e, depois, subir sobre ela para alcançar o alimento.
O mais impressionante é que os insetos nunca haviam sido treinados para realizar essa sequência de ações.
Descobrindo a solução sozinhos
Durante os testes, diversos abelhões encontraram a solução espontaneamente.
Eles perceberam que a bola podia ser deslocada e utilizada como uma espécie de plataforma. Depois de empurrá-la para a posição adequada, subiam nela e alcançavam a flor artificial.
Segundo o pesquisador Olli Loukola, da Universidade de Oulu, o comportamento observado representa um marco importante para o estudo da cognição animal.
De acordo com ele, o experimento exige que o animal compreenda que um objeto pode ser reposicionado e utilizado como ferramenta para atingir um objetivo que seria impossível de alcançar diretamente.
Até agora, demonstrações tão claras desse tipo de resolução espontânea de problemas eram raras em insetos.
Eliminando explicações mais simples
Os cientistas tomaram diversos cuidados para garantir que os resultados não fossem fruto do acaso.
Os abelhões aprenderam previamente apenas duas informações básicas: que a flor azul continha alimento e que a bola era um objeto móvel e inofensivo.
Eles nunca receberam treinamento para usar a bola como ferramenta.
Além disso, os pesquisadores criaram versões mais difíceis do experimento. Em algumas delas, a flor permanecia escondida enquanto os insetos moviam a bola, impedindo que simplesmente empurrassem o objeto em direção a um alvo visível.
Mesmo nessas condições, vários indivíduos conseguiram posicionar corretamente a bola e resolver o desafio.
As análises comportamentais mostraram que os movimentos não eram aleatórios nem resultado de simples tentativa e erro.
Os insetos que obtiveram sucesso apresentaram padrões de ação mais precisos e direcionados ao objetivo.
Cérebros minúsculos, habilidades surpreendentes

Os resultados reforçam uma tendência crescente na pesquisa sobre cognição de insetos.
Nos últimos anos, diversos estudos demonstraram que abelhas e abelhões possuem capacidades muito mais sofisticadas do que se imaginava anteriormente.
Pesquisas já mostraram que esses insetos conseguem aprender observando outros indivíduos, adaptar comportamentos a novas situações, cooperar em determinadas tarefas e até resolver desafios considerados complexos para organismos com cérebros tão pequenos.
A nova descoberta amplia ainda mais esse cenário.
Segundo os autores, o estudo demonstra que cérebros extremamente compactos podem gerar soluções flexíveis para problemas inéditos, algo que tradicionalmente era associado a animais com sistemas nervosos muito mais desenvolvidos.
O que isso significa para a ciência
Os pesquisadores fazem questão de destacar que os resultados não significam que os abelhões pensem da mesma forma que os seres humanos.
Não há evidências de que os insetos possuam consciência ou raciocínio comparáveis aos nossos.
No entanto, o estudo sugere que a inteligência animal pode surgir por caminhos diferentes daqueles tradicionalmente considerados pela ciência.
Em vez de depender apenas do tamanho do cérebro, determinadas habilidades cognitivas podem emergir de circuitos neurais altamente eficientes, mesmo quando compostos por um número relativamente pequeno de neurônios.
A descoberta abre novas perspectivas para compreender a evolução da inteligência na natureza e pode até inspirar pesquisas em áreas como robótica e inteligência artificial.
Afinal, se um cérebro do tamanho de uma semente consegue encontrar soluções criativas para problemas inéditos, talvez ainda tenhamos muito a aprender com os menores engenheiros do reino animal.
[ Fonte: abc ]