O acordo entre a União Europeia e os países do Mercosul finalmente saiu do papel e promete redefinir as relações comerciais entre os dois blocos. Para o governo brasileiro, trata-se de um avanço histórico em um cenário global cada vez mais protecionista. Para parte do setor produtivo, porém, o entusiasmo vem acompanhado de cautela. O tratado amplia mercados e reduz tarifas, mas também impõe limites que podem afetar exportações e a competitividade interna.
Um acordo histórico após mais de 20 anos

O entendimento entre a União Europeia e Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai encerra uma negociação iniciada há mais de duas décadas. Nesta semana, os embaixadores dos países europeus reunidos no Comitê de Representantes Permanentes (Coreper) deram o primeiro sinal verde para a assinatura do tratado, criando a maior área de livre comércio do mundo em termos populacionais.
Juntos, os dois blocos representam um mercado de mais de 700 milhões de consumidores e um PIB combinado de cerca de US$ 20 trilhões. A assinatura oficial está prevista para 17 de janeiro, no Paraguai, com a presença da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.
Apoios, resistências e protestos na Europa
A aprovação no Coreper ocorreu por maioria qualificada, mas longe de um consenso. França, Polônia, Áustria, Hungria e Irlanda votaram contra, enquanto a Bélgica se absteve. Em vários países europeus, agricultores protestaram contra o acordo, temendo concorrência de produtos sul-americanos que, segundo eles, não seguiriam os rigorosos padrões ambientais e sanitários da UE.
O ponto central do tratado é a eliminação progressiva de tarifas sobre cerca de 90% dos produtos comercializados entre os blocos. Hoje, alguns produtos europeus enfrentam tarifas elevadas no Mercosul, como até 35% para vinhos e automóveis, 28% para queijos e 20% para produtos industriais.
Entusiasmo político no Brasil

No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou o acordo como “um dia histórico para o multilateralismo”, destacando que ele foi fechado em um contexto de crescente unilateralismo no comércio internacional. Para o governo, o tratado também simboliza uma diversificação estratégica, reduzindo a dependência de mercados tradicionais como os Estados Unidos.
O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, afirmou que o acordo representa “um marco da diplomacia global” e creditou sua conclusão à articulação política do governo brasileiro.
Agronegócio dividido entre ganhos e cautela
Apesar do otimismo oficial, o setor agroindustrial brasileiro está longe de uma posição unificada. Parte dos produtores comemora a redução de tarifas e a ampliação do acesso ao mercado europeu. Outros, porém, veem com preocupação as quotas e cláusulas de salvaguarda impostas pela União Europeia para produtos sensíveis, como carne bovina, aves, ovos e açúcar.
Essas salvaguardas permitem a abertura de investigações e restrições caso os preços caiam entre 5% e 8% ou os volumes cresçam mais de 5% em média ao longo de três anos. Além disso, o acordo limita as importações do Mercosul a quotas relativamente pequenas, como 1,5% da produção europeia de carne bovina e 1,3% de aves.
Críticas e posições divergentes
A senadora Tereza Cristina, ex-ministra da Agricultura, afirmou que o livre comércio ainda está distante e classificou as salvaguardas como uma ameaça ao agronegócio brasileiro. Ainda assim, reconheceu que o acordo é “um passo possível” em um ambiente global marcado pelo protecionismo.
No setor de suco de laranja, por outro lado, a avaliação é positiva. Segundo a Associação Brasileira de Exportadores de Suco de Laranja (CitrusBR), a abertura ao mercado europeu pode gerar uma economia de cerca de US$ 320 milhões em cinco anos.
Já a Sociedade Rural Brasileira adota um tom mais crítico. Para seu presidente, Sérgio Bortolozzo, o foco comercial do Brasil hoje está mais voltado para Ásia, África, Oriente Médio e Oceania, e as salvaguardas europeias refletem uma postura protecionista.
Impactos econômicos projetados
De acordo com um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o acordo pode elevar o PIB brasileiro em 0,46% até 2040, o equivalente a US$ 9,3 bilhões, além de aumentar investimentos e melhorar a balança comercial. O ganho estimado para o Brasil é superior ao da União Europeia e dos demais países do Mercosul.
O agronegócio deve ser o principal beneficiado, com crescimento adicional de cerca de 2% em 17 anos, enquanto setores industriais específicos podem enfrentar maior concorrência europeia. Ainda assim, o efeito geral sobre a economia brasileira é considerado positivo.
Um equilíbrio delicado
Para especialistas, o acordo traz ganhos e perdas, como ocorre em qualquer grande tratado comercial. A chave estará na capacidade do Brasil de adaptar sua indústria, fortalecer a competitividade e aproveitar os novos espaços abertos. O debate, ao que tudo indica, está apenas começando.
[ Fonte: Infobae ]