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Tecnologia

Na guerra da IA, empresas agora acusam umas às outras de roubo — e a ironia é difícil de ignorar

Startup chinesa acusa a OpenAI de usar seus modelos e até copiar sua identidade visual. O caso expõe uma questão cada vez mais complicada: o que significa “roubo” em uma indústria construída com enormes quantidades de dados da internet?
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Tempo de leitura: 4 minutos

A explosão da inteligência artificial foi alimentada por uma premissa controversa: enormes volumes de conteúdo disponível na internet podem ser utilizados para treinar novos modelos. Agora, conforme a competição aumenta, as próprias empresas de IA começam a acusar umas às outras de ultrapassar os limites.

A mais recente disputa envolve a startup chinesa de robótica JoyIn, desenvolvedora do modelo Aether. A empresa acusa a OpenAI de utilizar seus sistemas em processos de “destilação” e até de copiar elementos da estética de seu site para o lançamento e a identidade visual do GPT-6 Astra.

Startup chinesa ameaça processar a OpenAI

Em uma carta aberta publicada em chinês, o CEO da JoyIn, Guo Renjie, afirmou que a empresa iniciou os procedimentos para entrar com uma ação judicial contra a OpenAI, segundo tradução divulgada pela CNBC.

O Gizmodo ressaltou que não verificou de maneira independente as alegações.

A acusação envolve uma técnica conhecida como destilação de modelos.

Na inteligência artificial, esse processo normalmente utiliza um modelo maior e mais avançado como uma espécie de “professor”. Suas respostas ajudam a treinar um modelo menor, o “aluno”, permitindo reproduzir parte de suas capacidades com menos recursos computacionais.

A técnica em si é comum. O problema surge quando empresas utilizam modelos proprietários de concorrentes sem autorização ou em desacordo com seus termos de uso.

E essa discussão está ficando cada vez mais tensa.

Empresas dos EUA acusam chinesas da mesma prática

Nos últimos meses, grandes empresas americanas de inteligência artificial, incluindo OpenAI e Anthropic, acusaram concorrentes chineses de realizar processos de destilação em larga escala utilizando seus modelos.

A Agência de Segurança Cibernética e de Infraestrutura dos Estados Unidos (CISA) também entrou na discussão.

Segundo a agência, empresas chinesas como DeepSeek, Moonshot AI, Alibaba, MiniMax, StepFun e Z.ai estariam realizando uma extração sistemática de capacidades presentes em modelos americanos.

A CISA alegou que campanhas de destilação em escala industrial seriam uma parte central da estratégia de desenvolvimento dessas companhias e afirmou que isso provavelmente ocorreria com conhecimento das autoridades chinesas.

A Anthropic também acusou a Moonshot, desenvolvedora do modelo Kimi, de utilizar uma estratégia na qual usuários acreditariam estar recebendo respostas do próprio Kimi quando, na realidade, parte delas teria sido gerada pelo Claude.

Agora uma empresa chinesa acusa a OpenAI

A denúncia da JoyIn chama atenção porque inverte os papéis.

Segundo o Gizmodo, seria o primeiro caso conhecido no qual uma desenvolvedora chinesa acusa uma empresa americana de inteligência artificial de realizar destilação de seus modelos.

Mas está longe de ser a primeira vez que a OpenAI enfrenta acusações relacionadas ao uso indevido de propriedade intelectual.

Desde o lançamento do ChatGPT, artistas, escritores, veículos de comunicação e outros detentores de direitos autorais apresentaram ações alegando que suas obras foram utilizadas sem autorização no treinamento de modelos.

A OpenAI contesta essas acusações e argumenta, entre outros pontos, que determinados usos de materiais protegidos podem ser amparados pelo conceito de “fair use” previsto na legislação americana.

Outras disputas também surgiram.

Em julho, a Apple entrou com uma ação acusando a empresa de utilizar segredos comerciais para desenvolver sua nova divisão de hardware. A OpenAI negou qualquer irregularidade.

Mais recentemente, um professor de matemática da Universidade de Nova York questionou se seu trabalho realizado com o Codex poderia ter influenciado um sistema posteriormente utilizado pela OpenAI em pesquisas relacionadas ao problema matemático de Navier-Stokes.

A empresa também rejeitou essa hipótese e afirmou categoricamente que as interações do pesquisador não poderiam ter influenciado o treinamento do sistema citado.

Afinal, onde termina o “fair use” e começa o roubo?

É aqui que a discussão fica especialmente complicada.

Empresas de inteligência artificial construíram modelos utilizando enormes quantidades de textos, imagens, códigos e outros conteúdos encontrados na internet. Parte desse material foi incorporada sem consentimento individual de seus criadores.

Agora, algumas dessas mesmas companhias argumentam que concorrentes não deveriam utilizar seus próprios modelos para desenvolver sistemas rivais.

Isso cria uma contradição difícil de ignorar.

Para empresas como OpenAI e Anthropic, existe uma diferença importante entre utilizar grandes conjuntos de conteúdo para treinar um modelo e extrair sistematicamente as capacidades de um sistema proprietário concorrente.

Críticos da indústria, porém, questionam onde exatamente essa fronteira deve ser estabelecida.

A resposta ainda está sendo construída por tribunais, governos e reguladores.

Enquanto isso, a corrida pela inteligência artificial continua acelerando. Empresas americanas acusam chinesas de copiar seus modelos, empresas chinesas começam a responder com acusações semelhantes e criadores continuam questionando como seus próprios trabalhos foram utilizados.

No Velho Oeste da IA, aparentemente todo mundo acredita que alguém está roubando alguma coisa. O problema é que ninguém chegou a um acordo definitivo sobre onde termina o aprendizado e começa o roubo.

 

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