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Ciência

Continente perdido sob montanhas revela um segredo da Terra de 550 milhões de anos

Rochas encontradas no Himalaia e na Ásia Central indicam que Gondwana era muito maior do que se imaginava. O supercontinente pode ter reunido cerca de 80% das terras emersas do planeta.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Há mais de 500 milhões de anos, o mapa da Terra era praticamente irreconhecível. Boa parte das terras emersas estava reunida em Gondwana, um enorme bloco continental que posteriormente daria origem a regiões como América do Sul, África, Antártida, Austrália e Índia.

Agora, uma pesquisa publicada na Science Advances sugere que esse supercontinente era ainda maior. Ao analisar granitos encontrados principalmente na Ásia, cientistas identificaram regiões que também teriam pertencido a Gondwana, mas que hoje estão escondidas sob montanhas e formações geológicas mais recentes.

Com a descoberta, estima-se que Gondwana tenha concentrado aproximadamente 80% das terras emersas existentes naquela época.

Gondwana era maior do que os cientistas imaginavam

Planeta Terra
© Hartono Creative Studio- Unsplash

Gondwana se formou entre aproximadamente 550 milhões e 500 milhões de anos atrás. As reconstruções tradicionais já incluíam África, América do Sul, Antártida, Austrália e Índia, além de partes da Europa, Turquia, Irã e Paquistão.

Ainda assim, essas regiões correspondiam a cerca de 64% das terras emersas do período.

Isso criava um problema. Uma das definições utilizadas para classificar uma massa terrestre como supercontinente considera que ela deveria reunir pelo menos 75% das áreas continentais existentes.

O novo estudo pode ter encontrado as peças que faltavam.

Os pesquisadores identificaram vestígios compatíveis com Gondwana em uma extensa região que começa na Índia e no Sudeste Asiático e chega a grandes áreas da China e do Cazaquistão.

Hoje, boa parte desses antigos terrenos está escondida sob cadeias montanhosas e rochas formadas muito tempo depois. Por isso, durante anos algumas dessas áreas foram interpretadas como vestígios de antigos oceanos.

Rochas do Himalaia guardavam as pistas

Para reconstruir esse passado, os pesquisadores analisaram amostras de granito encontradas em diferentes regiões.

O granito pode se formar a partir de materiais rochosos mais antigos e preservar informações sobre a origem geológica de uma área mesmo depois de centenas de milhões de anos de transformações.

No Himalaia, por exemplo, existem granitos de diferentes idades. A análise indicou que eles derivam de um mesmo bloco de terra formado entre 700 milhões e 550 milhões de anos atrás.

Bill Collins, geólogo e coautor da pesquisa ligado à Universidade Curtin, afirmou que encontrar essas partes enterradas de Gondwana aconteceu de maneira inesperada.

“Como costuma acontecer na ciência, a descoberta das partes enterradas de Gondwana foi fortuita”, explicou.

Mas encontrar o continente perdido foi apenas uma parte da descoberta.

Gondwana pode ter criado uma cadeia de vulcões de 35 mil km

Antes de completar sua formação, grandes partes de Gondwana estavam cobertas por gelo e atravessadas por enormes cadeias montanhosas.

Quando os diferentes blocos continentais finalmente se uniram, a movimentação das placas tectônicas teria criado um gigantesco sistema vulcânico ao redor do supercontinente.

Segundo os pesquisadores, esse arco se estendia por quase 35 mil quilômetros.

A cadeia passava por áreas que hoje correspondem à Rússia e à China, seguindo pela Austrália, Antártida, África do Sul e chegando aos Andes da América do Sul.

Sua extensão seria comparável à do atual Círculo de Fogo do Pacífico.

Durante milhões de anos, esses vulcões liberaram enormes quantidades de vapor d’água e dióxido de carbono na atmosfera.

Para Collins, essas emissões podem ter contribuído para uma grande transformação climática.

A atividade vulcânica teria ajudado a levar a Terra de uma fase predominantemente glacial para condições muito mais quentes, com maior efeito estufa.

A mudança aconteceu quando a vida complexa explodiu

Mediterrâneo1
© Google Maps

Existe outro detalhe que torna a descoberta especialmente interessante.

A formação de Gondwana e essa intensa atividade geológica aconteceram perto da chamada explosão cambriana, período iniciado há mais de 500 milhões de anos no qual ocorreu uma rápida diversificação de formas de vida complexas.

Os pesquisadores não afirmam que os vulcões de Gondwana tenham causado diretamente essa explosão de biodiversidade.

No entanto, a coincidência temporal abre espaço para investigar uma possível relação entre a formação do supercontinente, o aumento de gases de efeito estufa, mudanças climáticas e transformações químicas nos oceanos.

Alterações ambientais dessa magnitude poderiam ter influenciado as condições nas quais diferentes organismos se desenvolveram.

Um continente que acabou espalhado pelo planeta

Gondwana não permaneceu unido para sempre.

Ao longo de centenas de milhões de anos, a movimentação das placas tectônicas fragmentou o supercontinente. Seus pedaços viajaram lentamente pela superfície terrestre até formar regiões hoje separadas por milhares de quilômetros.

América do Sul, África, Índia, Austrália e Antártida carregam até hoje sinais desse passado compartilhado.

Agora, as novas evidências encontradas sob as montanhas da Ásia adicionam mais peças a esse quebra-cabeça geológico.

Os pesquisadores ainda precisam determinar com maior precisão onde terminavam as fronteiras de Gondwana e como cada um desses terrenos evoluiu posteriormente.

Mas a descoberta mostra como um continente desaparecido há centenas de milhões de anos ainda pode estar diante de nós — apenas escondido sob algumas das maiores montanhas da Terra.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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