O planeta já passou por períodos muito mais quentes do que o atual. Uma das reconstruções mais detalhadas da temperatura da Terra mostra que, nos últimos 485 milhões de anos, a temperatura média global oscilou entre aproximadamente 11 °C e 36 °C. Atualmente, ela está em torno de 15 °C.
O estudo, publicado na revista Science e liderado pela paleoclimatóloga Emily J. Judd, do Museu Nacional de História Natural do Smithsonian, ajuda a reconstruir uma história climática marcada por transformações extremas.
A Terra já chegou a uma média global de 36 °C

Os pesquisadores desenvolveram um modelo chamado PhanDA, que combina indicadores geológicos com simulações climáticas.
Os resultados indicam que um dos momentos mais quentes ocorreu durante o Turoniano, entre aproximadamente 93,9 milhões e 89,4 milhões de anos atrás. Já as temperaturas mais baixas da reconstrução aparecem muito depois, durante o Pleistoceno tardio.
Judd e seus colegas, entre eles Jessica Tierney, da Universidade do Arizona, e Paul Valdes, da Universidade de Bristol, também chegaram a outra conclusão importante.
Ao longo desse enorme intervalo de tempo, a Terra permaneceu mais tempo em estados climáticos quentes do que em estados frios. Além disso, as concentrações atmosféricas de dióxido de carbono aparecem como um dos principais fatores associados às grandes mudanças de temperatura.
E existe uma evidência impressionante daquele mundo extremamente quente. Ela foi encontrada no fundo do mar de Amundsen, na Antártida.
Uma floresta crescia a apenas 900 quilômetros do Polo Sul
Em 2017, o quebra-gelo Polarstern perfurou o leito marinho da enseada do mar de Amundsen utilizando o equipamento MARUM-MeBo70.
A cerca de 27 metros abaixo do fundo do mar, os pesquisadores encontraram algo surpreendente: uma densa rede de raízes fossilizadas, além de pólen e esporos pertencentes a cerca de 65 tipos diferentes de plantas.
A equipe do Instituto Alfred Wegener, liderada por Johann P. Klages, publicou a descoberta na revista Nature em 2020.
As evidências mostram que, há aproximadamente 90 milhões de anos, existia uma floresta pantanosa formada por coníferas e samambaias-arbóreas a cerca de 900 quilômetros do Polo Sul.
As condições eram quase inimagináveis quando comparadas com a Antártida atual.
Segundo Klages, a região apresentava temperatura média anual próxima de 12 °C. Durante o verão, os termômetros poderiam chegar a 19 °C, enquanto rios e áreas pantanosas alcançavam aproximadamente 20 °C.
As chuvas eram comparáveis às registradas atualmente no País de Gales. Tudo isso acontecia apesar de a região enfrentar cerca de quatro meses consecutivos de noite polar.
Mais impressionante ainda: as evidências indicam que não existia uma grande camada de gelo cobrindo aquela parte da Antártida.
O CO2 era muito maior do que atualmente

Para conseguir reproduzir esse clima nas simulações, o climatologista Gerrit Lohmann precisou utilizar concentrações de CO2 muito superiores às estimativas anteriormente consideradas para o período Cretáceo.
Os modelos apontaram para valores entre aproximadamente 1.120 e 1.680 partes por milhão.
Outra descoberta reforçou a imagem de uma Antártida coberta por vegetação. Em 2024, pesquisadores da mesma equipe descreveram na revista Antarctic Science o primeiro âmbar já encontrado no continente.
Os pequenos fragmentos foram recuperados a cerca de 946 metros de profundidade e receberam o nome de âmbar de Pine Island. Na prática, trata-se de resina fossilizada produzida por árvores que cresceram onde hoje existe um dos ambientes mais gelados do planeta.
A grande diferença está na velocidade do aquecimento
Em 2026, a concentração de CO2 na atmosfera está na faixa das 430 partes por milhão, segundo previsões anuais do Met Office britânico para o observatório de Mauna Loa.
Ainda estamos muito abaixo dos níveis estimados para aquele período do Cretáceo. Porém, existe uma diferença fundamental entre os dois cenários: o tempo.
As grandes transformações climáticas do passado ocorreram durante milhões de anos. Processos como atividade vulcânica e movimentos tectônicos modificaram gradualmente a atmosfera e o clima, enquanto muitas espécies tiveram períodos muito maiores para migrar ou se adaptar.
O aquecimento atual, por outro lado, acontece em uma escala de décadas.
Essa é uma das principais mensagens da reconstrução liderada por Judd. O fato de a Terra já ter sido muito mais quente não significa que o aquecimento atual seja irrelevante. A velocidade da mudança é um fator decisivo para ecossistemas, oceanos e sociedades humanas.
A antiga floresta da Antártida mostra até onde o clima terrestre pode chegar sob determinadas condições. E existe outro detalhe daquele mundo que ajuda a colocar tudo em perspectiva: durante partes do Cretáceo, o nível dos oceanos estava muito acima do atual.
A Antártida já teve florestas, rios e verões relativamente amenos. A questão não é simplesmente se a Terra consegue sobreviver a temperaturas maiores. Ela consegue — e sua história geológica demonstra isso. O verdadeiro desafio é o que acontece quando uma transformação climática profunda ocorre rápido demais.
[ Fonte: Voz Populi ]