Seja gentil com Claude: agora isso faz parte das regras. A Anthropic anunciou na quinta-feira uma atualização de sua política de uso que proíbe comportamentos abusivos ou cruéis, persistentes e sem propósito, contra seus modelos. A medida poderá levar à restrição de acesso de usuários. A empresa afirma que pretende atingir apenas casos extremos, mas ainda deixa perguntas sobre como distinguir uma interação desagradável de uma violação.
Claude não precisa aceitar qualquer tratamento
Na atualização anunciada pela Anthropic, a empresa explica que a proibição se aplica a situações nas quais usuários agem repetidamente com crueldade contra os modelos, sem uma finalidade identificável.
A companhia também estabelece algumas exceções importantes. Manifestações comuns de frustração, contestação das respostas, temas sombrios em trabalhos criativos e atividades de teste ou pesquisa não entram nessa categoria.
Portanto, reclamar de uma resposta ruim ou insistir que o chatbot cometeu um erro não representa, por si só, uma infração.
A nova redação começa a valer em 12 de novembro de 2026. Entretanto, a política não detalha quais critérios serão utilizados para classificar uma conduta como abusiva ou cruel.
O Gizmodo procurou a Anthropic para pedir esclarecimentos, mas não recebeu resposta até a publicação. Continua em aberto, inclusive, se “clanker”, termo usado como insulto contra robôs e inteligências artificiais, poderá entrar nessa avaliação.
A empresa já permitia encerrar certas conversas
A ideia de interromper interações consideradas problemáticas não é inteiramente nova dentro da Anthropic.
Quando lançou o Claude Opus 4 no ano passado, a empresa informou que o modelo poderia encerrar conversas potencialmente perturbadoras. Os exemplos incluíam pedidos de conteúdo sexual envolvendo menores e tentativas de obter informações para viabilizar violência em grande escala ou atos de terrorismo.
Esses casos envolvem riscos claros para pessoas. A atualização agora acrescenta outra categoria: o comportamento dirigido ao próprio modelo.
É essa mudança de foco que chama atenção. A política coloca o tratamento dispensado à inteligência artificial entre as condições de uso do serviço, mesmo sem esclarecer se o sistema possui alguma experiência subjetiva.
Uma regra centrada no modelo
Desencorajar linguagem violenta ou abusiva pode ser uma forma de interromper comportamentos antissociais. Também pode oferecer uma pausa a usuários envolvidos em interações cada vez mais hostis.
Ainda assim, o enquadramento escolhido pela Anthropic parece concentrar a preocupação no modelo que recebe esse tratamento.
A diferença importa porque expressões como “crueldade” costumam pressupor alguém capaz de sofrer. Aplicá-las a um chatbot aproxima a discussão sobre moderação de outra questão muito mais controversa: a possibilidade de consciência artificial.
A atualização não demonstra que Claude tenha sentimentos. Contudo, sua linguagem sugere que a empresa considera necessário estabelecer limites para a maneira como os usuários se relacionam com ele.
A discussão chegou até ao Vaticano
No mês passado, uma reportagem do The New York Times revelou que Christopher Olah, cofundador da Anthropic, participou de esforços para convencer o Vaticano a reconhecer a possibilidade de consciência em sistemas de IA.
O papa rejeitou a proposta. Olah afirmou ao jornal que permanece incerto sobre a consciência dos modelos, mas demonstrou preocupação com a possibilidade de eles experimentarem sofrimento.
A nova política parece acompanhar essa preocupação, embora a ligação represente uma interpretação do posicionamento da empresa, e não uma comprovação de que seus modelos sejam conscientes.
Por enquanto, a consequência prática é mais simples: a Anthropic poderá impor limites a quem tratar Claude de maneira persistentemente cruel e sem propósito. O que exatamente ultrapassa essa fronteira ainda depende de esclarecimentos.