Moradores de Teerã e de outras cidades iranianas acordaram na madrugada de sábado com o som de fortes explosões. Israel e Estados Unidos classificaram os ataques como “preventivos”, após negociações fracassadas e meses de tensão regional.
Mas o episódio ganhou um componente digital inesperado. Pouco depois das primeiras detonações, usuários do aplicativo BadeSaba Calendar — voltado à organização dos horários de oração islâmica e com cerca de 5 milhões de downloads na Google Play — começaram a receber notificações incomuns.
As mensagens não traziam alertas de segurança. Em vez disso, pediam que integrantes das Forças Armadas iranianas depusessem as armas.
“A ajuda chegou”
Segundo capturas de tela compartilhadas com a imprensa internacional, a primeira notificação foi enviada às 9h52 (horário de Teerã) com a frase: “A ajuda chegou”. Outras mensagens se seguiram ao longo de cerca de 30 minutos.
Alguns textos prometiam anistia a militares que se juntassem às “forças de libertação”. Outros diziam que “as forças repressivas do regime pagarão por suas ações”. Em determinado momento, uma notificação afirmava: “Depoem as armas ou unam-se às forças de libertação. Só assim poderão salvar suas vidas”.
Nenhum governo ou grupo assumiu a autoria da invasão digital.
Ataque cibernético em meio à guerra

Especialistas em segurança confirmaram que usuários do aplicativo receberam as notificações simultaneamente aos bombardeios. A origem do ataque, porém, permanece incerta.
Para Narges Keshavarznia, pesquisadora de direitos digitais do Grupo Miaan, a atribuição é complexa. Segundo ela, ainda é cedo para concluir se a ação partiu de Israel, de grupos iranianos opositores ao regime ou de outro ator.
Já Morey Haber, diretor de segurança da BeyondTrust, avalia que a operação parece ter sido planejada com antecedência. “Essas mensagens provavelmente foram preparadas e ativadas no momento certo. Não é um ataque de ransomware. Parece uma operação com intenção estratégica”, afirmou.
Apagão digital e bloqueios de internet
Enquanto os ataques militares e cibernéticos ocorriam, o Irã reduziu drasticamente a conectividade à internet no país.
Segundo dados da ferramenta de monitoramento NetBlocks, o tráfego internacional caiu para cerca de 4% do volume normal. Informações do sistema Radar da ArvanCloud indicaram que importantes centros de dados perderam conexão com a rede global ou sofreram interrupções severas.
Linhas telefônicas, serviços de SMS e conexões móveis também foram afetados. Até o uso de VPNs tornou-se difícil, segundo relatos de moradores.
Além do aplicativo de oração, veículos estatais como a IRNA e a ISNA sofreram ataques cibernéticos. Enquanto a IRNA voltou ao ar, a ISNA permaneceu inacessível por horas.
Memória recente de apagões

Os cortes de internet não são novidade para os iranianos. No início do ano, durante protestos nacionais que deixaram milhares de mortos segundo dados oficiais, o país enfrentou apagões digitais prolongados.
Para ativistas de direitos digitais, o bloqueio da conectividade amplia riscos. Sem acesso à rede, civis perdem a capacidade de documentar eventos, buscar ajuda ou informar a comunidade internacional.
“A preocupação mais urgente não é apenas a interrupção técnica, mas a perda de visibilidade e de responsabilização”, afirmou Keshavarznia.
Guerra híbrida
O episódio evidencia como conflitos modernos combinam ataques militares convencionais com operações cibernéticas e informacionais.
A invasão de um aplicativo amplamente utilizado, no momento exato dos bombardeios, sugere uma tentativa de desestabilização psicológica e de pressão sobre forças militares.
Em um cenário em que a guerra também se trava nos smartphones, a fronteira entre campo de batalha físico e digital torna-se cada vez mais difusa — e mais difícil de atribuir com precisão.
[ Fonte: Wired ]