A geração global de eletricidade renovável já começa a ultrapassar fontes como o carvão. O avanço é histórico — mas traz um desafio imediato: como guardar energia para usá-la depois. Entre baterias gigantes e usinas hidrelétricas reversíveis, uma alternativa pouco conhecida volta ao radar: o armazenamento por ar líquido. Em 2026, essa ideia finalmente ganhará sua primeira planta comercial, marcando um possível ponto de virada para a transição energética.
O desafio invisível da energia limpa

Diferentemente de usinas a gás ou carvão, que podem ser ligadas e desligadas conforme a demanda, fontes como solar e eólica são intermitentes. Em alguns momentos produzem pouco, arriscando apagões; em outros, geram excesso, o que pode sobrecarregar a rede.
Guardar esse excedente é essencial para garantir estabilidade. Durante décadas, a principal solução foi a hidrelétrica de bombeamento: usa-se energia sobrando para levar água morro acima e, quando necessário, ela desce por turbinas gerando eletricidade. Mais recentemente, baterias de grande escala entraram em cena.
Segundo a Agência Internacional de Energia, a capacidade mundial de armazenamento em baterias saltou de cerca de 1 GW em 2013 para mais de 85 GW em 2023, com mais de 40 GW adicionados apenas naquele ano. Ainda assim, especialistas alertam que isso pode não ser suficiente para sustentar redes dominadas por renováveis.
Como funciona uma “bateria” de ar líquido
A ideia do ar líquido existe desde os anos 1970, mas só agora começa a ganhar tração. O processo ocorre em três etapas. Primeiro, o ar ambiente é captado e purificado. Depois, é comprimido repetidamente até atingir pressões muito altas. Por fim, passa por trocadores de calor que o resfriam até virar líquido.
Essa fase de “carga” consome eletricidade — idealmente, aquela que sobra da geração renovável. Quando a rede precisa de energia, o ar líquido é retirado dos tanques, aquecido, volta ao estado gasoso e se expande, movimentando turbinas que produzem eletricidade. Ao final, o ar retorna à atmosfera.
A eficiência melhora graças à recuperação do calor gerado durante a compressão. Com esses ciclos térmicos, o rendimento pode ultrapassar 60% e se aproximar de 70%, explica Shaylin Cetegen, engenheira química do Instituto Tecnológico de Massachusetts, que pesquisa sistemas de armazenamento.
A primeira planta comercial está a caminho

Perto da vila de Carrington, nos arredores de Manchester, estão sendo lançadas as bases da primeira instalação comercial de armazenamento por ar líquido do planeta. O projeto é da Highview Power, que desenvolve essa tecnologia há cerca de 20 anos.
A unidade poderá armazenar até 300 megawatts-hora — energia suficiente para cobrir interrupções breves para centenas de milhares de residências. A turbina deve começar a operar em agosto de 2026, inicialmente ajudando a estabilizar a rede. O sistema completo de armazenamento entra em funcionamento em 2027, quando a empresa passará a vender eletricidade nos momentos de maior demanda.
Hoje, operadores recorrem com frequência a usinas a gás apenas para equilibrar a rede, um processo caro e poluente. A promessa é que o ar líquido ofereça uma alternativa mais limpa para essa tarefa.
Custos, limites e onde a conta fecha
Apesar do potencial, a viabilidade econômica ainda é um obstáculo. Em um estudo recente, Cetegen e colegas avaliaram projetos de ar líquido em 18 regiões dos EUA, simulando diferentes cenários de descarbonização ao longo de 40 anos. No cenário mais ambicioso, a tecnologia se mostrou financeiramente viável apenas em Texas e Florida.
O motivo principal é simples: nos primeiros anos, ainda há poucas renováveis na rede para criar a volatilidade de preços que tornaria o armazenamento lucrativo. Mesmo assim, o ar líquido se destaca em um ponto-chave: o custo nivelado de armazenamento pode chegar a cerca de US$ 45 por megawatt-hora — bem abaixo de alternativas como baterias de íons de lítio ou hidrelétricas de bombeamento.
Nenhuma dessas soluções é plenamente competitiva hoje sem apoio político. Mas, para grandes volumes e longos períodos, o ar líquido surge como uma das opções mais baratas.
No fim das contas, especialistas concordam que não haverá uma tecnologia única vencedora. Hidrelétricas reversíveis duram décadas, mas dependem de geografia. Baterias são eficientes e instaláveis em qualquer lugar, porém precisam ser trocadas após cerca de 10 anos. O ar líquido, por sua vez, pode guardar energia por mais tempo, com perdas mínimas.
À medida que países reformulam suas redes para acomodar a geração verde, uma coisa fica clara: armazenar eletricidade será tão importante quanto produzi-la. E, depois de quase 50 anos à margem, o ar líquido pode finalmente encontrar seu lugar no coração da nova infraestrutura energética.
[ Fonte: BBC ]