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Avança o trem bioceânico que vai ligar Atlântico e Pacífico — e promete redesenhar as exportações da América do Sul para Ásia e Europa

Cinco países sul-americanos aceleram um megaprojeto ferroviário que vai conectar o Atlântico ao Pacífico, criando uma nova rota terrestre de exportação. A promessa é reduzir prazos, cortar custos logísticos e abrir um caminho direto para Ásia e Europa — com forte interesse chinês e investimentos bilionários no horizonte.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Os trens voltaram ao centro da estratégia de integração regional na América do Sul. Avança a construção do chamado Trem Bioceânico de Integração, uma rede ferroviária de milhares de quilômetros que pretende unir o porto de Santos, no Brasil, ao porto de Ilo, no Peru, criando um corredor logístico contínuo entre o Atlântico e o Pacífico.

A iniciativa envolve ainda Bolívia, Paraguai e Argentina. Juntos, os cinco países apostam na ferrovia como alternativa ao transporte marítimo tradicional, hoje responsável por levar cargas do Atlântico à Ásia em trajetos que podem ultrapassar 30 dias.

Com o novo corredor, a expectativa é cruzar o continente em menos de dez dias.

Um traçado continental com ramais estratégicos

Trem Bioceanico
© X – @Eneatipo7

O projeto prevê uma malha principal entre Santos e Ilo, com extensão estimada entre 3.700 e 4.000 quilômetros, além de ramais secundários para ampliar o alcance regional. Ao longo do percurso estão previstas conexões com centros urbanos e polos produtivos, incluindo áreas próximas a La Paz, Santa Cruz, Puerto Suárez, Campo Grande e São Paulo.

A obra envolve a construção de túneis, pontes, estações e plataformas logísticas com tecnologia moderna, pensadas para operar grandes volumes de carga. O objetivo é permitir que produtos agrícolas, minerais e industriais atravessem a América do Sul de forma mais rápida e previsível, fortalecendo cadeias de exportação hoje limitadas pela distância aos portos.

Na prática, o trem pretende transformar regiões interiores — muitas vezes afastadas dos grandes terminais marítimos — em novos hubs de escoamento, conectados diretamente aos mercados internacionais.

Impacto econômico esperado

Governos e planejadores veem o corredor ferroviário como um dos maiores projetos de infraestrutura já concebidos na região. As projeções iniciais indicam capacidade para transportar mais de 8,6 milhões de toneladas por ano.

Entre os principais benefícios apontados estão a redução de custos logísticos, maior competitividade das exportações sul-americanas e estímulo ao crescimento econômico em áreas hoje menos integradas ao comércio exterior. A fase de construção deve gerar milhares de empregos diretos e indiretos, enquanto a operação tende a atrair investimentos em armazéns, terminais intermodais e serviços associados.

Além do comércio, o projeto também pode impulsionar o turismo regional, ao criar novas conexões terrestres entre países vizinhos e facilitar deslocamentos de longa distância dentro do continente.

China entra em cena como parceira estratégica

Um dos motores externos do projeto é a China. Pequim já manifestou interesse em participar com financiamento, tecnologia e equipamentos ferroviários, vendo no trem uma via terrestre estratégica para garantir o fornecimento de matérias-primas e reforçar sua presença comercial na América do Sul.

A fabricante CRRC Dalian, uma das maiores produtoras de trens de carga do mundo, enviou recentemente uma carta de intenção ao governo peruano para avançar nos estudos técnicos. O documento está sendo articulado por instâncias regionais para acelerar avaliações de viabilidade e consolidar apoio institucional.

Para a China, o corredor bioceânico representa mais do que infraestrutura: trata-se de um atalho geoeconômico que encurta distâncias entre produtores sul-americanos e consumidores asiáticos, reduzindo dependência de rotas marítimas congestionadas.

Investimento bilionário e desafios pela frente

A ponte que partiu uma montanha e mudou o tempo no mapa da China
© https://x.com/astronomiaum/

A estimativa preliminar de investimento gira em torno de US$ 15 bilhões, embora o valor final possa variar conforme o traçado escolhido e a complexidade das obras em áreas sensíveis, como regiões montanhosas dos Andes e trechos próximos à Amazônia.

Entre os desafios estão o licenciamento ambiental, a padronização técnica entre países, a coordenação regulatória e a garantia de financiamento de longo prazo. Também será necessário harmonizar bitolas ferroviárias, sistemas de sinalização e modelos de operação para que a linha funcione como um verdadeiro corredor integrado, e não apenas como segmentos nacionais conectados.

Uma nova rota para o comércio sul-americano

Se sair do papel conforme planejado, o Trem Bioceânico de Integração pode inaugurar uma nova fase para a logística continental. Ao ligar diretamente Atlântico e Pacífico, o projeto promete reposicionar a América do Sul no mapa do comércio global, oferecendo uma alternativa terrestre rápida para exportações rumo à Ásia e à Europa.

Ainda há etapas importantes a vencer, mas o avanço institucional e o interesse internacional indicam que o megaprojeto deixou de ser apenas uma ideia. Para os países envolvidos, trata-se de uma aposta de longo prazo em integração, competitividade e protagonismo nas cadeias globais de valor.

 

[ Fonte: El Cronista ]

 

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