Um planeta recém-nascido, escondido em uma gigantesca nuvem de gás e poeira, está obrigando os cientistas a reconsiderar o que sabem sobre a formação dos mundos. Batizado de Elias 2-24 b, o exoplaneta tem menos de um milhão de anos, aproximadamente o dobro da massa de Júpiter e está localizado a 450 anos-luz da Terra. Identificado por uma equipe liderada por pesquisadores no Chile, ele é considerado o planeta mais jovem confirmado até hoje.
Um planeta gigante que nasceu muito antes do esperado
A descoberta foi apresentada em setembro de 2026 na revista científica The Astrophysical Journal Letters e ganhou destaque após a divulgação de novos detalhes pela NASA.
O planeta Elias 2-24 b orbita uma estrela extremamente jovem, ainda cercada pelo disco de gás e poeira que deu origem ao sistema planetário.
Sua idade é particularmente surpreendente.
Enquanto a Terra possui aproximadamente 4,54 bilhões de anos, esse mundo tem menos de um milhão de anos e ainda está acumulando material.
Os exoplanetas que anteriormente compartilhavam o recorde de menor idade orbitavam as estrelas PDS 70 e WISPIT 2, com mais de cinco milhões de anos.
A descoberta reduz drasticamente essa referência e permite observar uma etapa raramente acessível aos telescópios.
Segundo Lucas Cieza, pesquisador do Instituto de Estudos Astrofísicos do Chile e coautor do estudo, os modelos existentes já apresentavam dificuldades para explicar a formação dos planetas mais jovens conhecidos.
Elias 2-24 b tornou esse desafio ainda maior.
O mistério de um planeta que cresceu rápido demais

O aspecto mais intrigante não é apenas a idade, mas a localização do planeta.
Elias 2-24 b está aproximadamente 55 vezes mais distante de sua estrela do que a Terra está do Sol.
Para comparação, Júpiter orbita o Sol a uma distância média de cerca de cinco unidades astronômicas.
Segundo os modelos tradicionais, planetas gigantes se formam quando partículas sólidas se acumulam progressivamente, criando um núcleo capaz de atrair grandes quantidades de gás.
Esse processo pode levar milhões de anos, especialmente em regiões distantes das estrelas, onde a disponibilidade de material e a velocidade de crescimento representam desafios adicionais.
Entretanto, Elias 2-24 b já apresenta uma massa estimada em aproximadamente duas vezes a de Júpiter.
Isso sugere que determinados mecanismos de formação planetária podem funcionar muito mais rapidamente do que algumas teorias preveem.
Uma descoberta escondida em observações antigas
A história começou quase uma década antes da confirmação.
O radiotelescópio ALMA, instalado no deserto do Atacama, no Chile, identificou uma abertura incomum no disco de gás e poeira que envolve a estrela Elias 2-24.
Esses espaços vazios podem indicar a presença de planetas em formação.
À medida que crescem, os planetas exercem influência gravitacional sobre o material ao redor, criando estruturas semelhantes a anéis e lacunas.
Posteriormente, o Very Large Telescope, também localizado no Chile, detectou um pequeno ponto luminoso dentro da abertura.
Os astrônomos suspeitaram que poderia ser um planeta, mas ainda não existiam evidências suficientes para confirmar a hipótese.
A resposta surgiu quando pesquisadores decidiram examinar imagens antigas do Observatório W. M. Keck, no Havaí.
Como os cientistas conseguiram confirmar o planeta?
A equipe foi liderada por Andrea Bernardi, doutorando da Universidade Diego Portales, no Chile.
Os pesquisadores analisaram observações realizadas em 2018 e 2020 com o instrumento NIRC2, equipado com um coronógrafo.
Essa tecnologia permite bloquear parte da intensa luminosidade de uma estrela para observar objetos muito menos brilhantes ao seu redor.
Ao comparar as imagens, os cientistas identificaram o deslocamento do objeto, compatível com o movimento esperado de um planeta.
A combinação dos registros do Keck, do ALMA e do Very Large Telescope fortaleceu a identificação.
A NASA detalhou a descoberta em seu comunicado científico oficial, destacando a importância de reutilizar observações armazenadas durante anos.
O resultado demonstra que descobertas importantes nem sempre dependem de novos telescópios. Em alguns casos, informações decisivas já estão disponíveis nos arquivos científicos.
O que esse planeta revela sobre o nascimento da Terra?
Embora Elias 2-24 b seja um gigante gasoso, sua descoberta ajuda a compreender processos que também ocorreram durante a formação do Sistema Solar.
Há aproximadamente 4,6 bilhões de anos, o Sol surgiu no interior de uma nuvem de gás e poeira.
O material restante formou um disco no qual partículas começaram a se unir, dando origem aos planetas.
Observar Elias 2-24 b significa estudar um sistema que ainda atravessa uma etapa semelhante àquela vivida pelo nosso próprio Sistema Solar.
A diferença é que os astrônomos agora conseguem identificar um planeta enquanto ele continua crescendo.
Essa oportunidade pode ajudar a esclarecer como os gigantes gasosos acumulam massa, interagem com seus discos e influenciam o surgimento de outros corpos celestes.
A descoberta pode mudar os modelos de formação planetária
Os pesquisadores ainda precisam determinar com maior precisão a massa do planeta e os mecanismos responsáveis por seu crescimento acelerado.
Novas observações poderão revelar como o gás continua sendo incorporado ao objeto e se outros planetas estão surgindo no mesmo sistema.
Instrumentos futuros, incluindo o telescópio espacial Nancy Grace Roman, poderão ampliar a capacidade de identificar mundos extremamente jovens.
O principal impacto da descoberta está na possibilidade de acompanhar a formação planetária praticamente em tempo real, considerando as escalas astronômicas.
Elias 2-24 b mostra que o Universo pode construir planetas gigantes muito mais rapidamente do que se imaginava.
E também sugere que ainda existem etapas fundamentais do nascimento dos mundos que a ciência está apenas começando a compreender.