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Ciência

Astrônomos encontram “rio de estrelas” fora da Via Láctea e revelam pista sobre matéria escura

Uma corrente estelar descoberta a mais de 100 milhões de anos-luz pode oferecer aos cientistas uma nova maneira de mapear a misteriosa matéria escura.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Pela primeira vez, astrônomos identificaram uma corrente de estrelas em uma galáxia distante, muito além da Via Láctea. A estrutura foi encontrada em uma tênue galáxia ultradifusa localizada a mais de 100 milhões de anos-luz da Terra. Além de representar um feito impressionante de observação, a descoberta pode transformar essas correntes estelares em ferramentas para investigar a distribuição da matéria escura em outras partes do Universo.

O trabalho foi realizado por uma equipe internacional liderada por pesquisadores da Universidade de Copenhague. Até agora, técnicas semelhantes eram utilizadas principalmente dentro da nossa própria galáxia.

A descoberta mostra que o método também pode funcionar a distâncias muito maiores.

Oyashio: um rio de estrelas em outra galáxia

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© Getty Images- Unsplash

Os pesquisadores analisaram observações feitas pelo telescópio espacial Hubble e pelo Canada-France-Hawaii Telescope. Foi assim que encontraram uma estrutura fina e alongada atravessando a galáxia ultradifusa UGC9050-Dw1.

A corrente recebeu o nome de Oyashio.

Segundo a equipe liderada pela astrofísica Julie Kiel Holm, do Instituto Niels Bohr, a estrutura possui aproximadamente 2.000 anos-luz de comprimento, mas apenas cerca de 72 anos-luz de largura.

Essa enorme diferença entre comprimento e largura ajuda a explicar por que os pesquisadores descrevem essas estruturas como verdadeiros rios de estrelas.

As análises indicam que Oyashio provavelmente surgiu quando um aglomerado globular começou a ser destruído pelas forças gravitacionais da galáxia. Com o tempo, suas estrelas foram arrancadas e distribuídas ao longo de uma trajetória estreita.

O resultado foi a formação da corrente observada atualmente.

Até então, estruturas desse tipo haviam sido estudadas principalmente na Via Láctea. Detectá-las em uma galáxia tão distante era extremamente difícil devido ao seu baixo brilho.

Um instrumento natural para enxergar a matéria escura

A importância da descoberta vai muito além da própria corrente estelar.

A matéria escura não produz, absorve ou reflete luz de maneira que possa ser observada diretamente pelos telescópios. Os cientistas detectam sua presença principalmente pelos efeitos gravitacionais que ela exerce sobre estrelas, galáxias e outras estruturas visíveis.

É justamente nesse ponto que os rios de estrelas se tornam especialmente interessantes.

Ao acompanhar a trajetória e a distribuição dessas estrelas, os astrônomos conseguem estudar o campo gravitacional ao redor delas. Pequenas alterações na corrente podem revelar concentrações de massa que permanecem completamente invisíveis.

Em outras palavras, as estrelas funcionam como partículas que desenham no espaço os efeitos gravitacionais da matéria escura.

Galáxia pode esconder uma quantidade gigantesca de massa

Para estudar Oyashio, os pesquisadores utilizaram um programa chamado X-Stream, capaz de simular a evolução dessas estruturas.

Os cálculos indicaram que a UGC9050-Dw1 pode estar cercada por um halo de matéria escura com uma massa equivalente a aproximadamente 400 bilhões de vezes a massa do Sol.

O número chama ainda mais atenção por se tratar de uma galáxia ultradifusa.

Essas galáxias possuem poucas estrelas distribuídas por enormes regiões do espaço. Por isso, são extremamente tênues quando comparadas a galáxias mais brilhantes.

A existência de uma grande quantidade de matéria escura ao redor de uma estrutura com relativamente poucas estrelas reforça o interesse dos astrônomos nesse tipo de objeto.

Novos telescópios podem encontrar centenas dessas estruturas

Radiotelescópio1
© Caltech – YouTube

Os cientistas também analisaram outras explicações possíveis para Oyashio. Entre elas estavam colisões entre estruturas ou simples alinhamentos ocasionais de estrelas.

Modelos computacionais e comparações de luminosidade, porém, favoreceram a hipótese de uma verdadeira corrente estelar produzida pela destruição gravitacional de um aglomerado.

Agora, a expectativa é encontrar muitos outros exemplos.

Observatórios de nova geração, como o Euclid e o telescópio espacial Nancy Grace Roman, poderão observar enormes regiões do céu com sensibilidade suficiente para identificar estruturas semelhantes em outras galáxias.

Sarah Pearson, pesquisadora da DTU Space envolvida no estudo, acredita que essas futuras observações poderão revelar correntes estelares em centenas de sistemas distantes.

Matéria escura pode deixar “impressões digitais” nas estrelas

Se isso acontecer, os astrônomos terão uma nova ferramenta para estudar um dos maiores mistérios da física moderna.

As correntes estelares podem funcionar como uma espécie de impressão digital gravitacional. Ao analisar suas formas, interrupções e movimentos, pesquisadores conseguem reconstruir como a massa está distribuída ao redor das galáxias.

Isso permitiria testar diferentes modelos de matéria escura em ambientes muito além da Via Láctea.

A descoberta de Oyashio, portanto, não representa apenas a identificação de um curioso rio de estrelas a mais de 100 milhões de anos-luz.

Ela demonstra que uma técnica já utilizada em nossa vizinhança cósmica pode ser levada para uma escala muito maior. E isso oferece aos cientistas uma nova maneira de tentar enxergar, indiretamente, a matéria invisível que ajuda a moldar o Universo.

 

[ Fonte: El Litoral ]

 

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