Viver até os 100 anos já é uma conquista extraordinária, mas ultrapassar essa idade representa um desafio ainda maior para o organismo. Segundo o cientista Venki Ramakrishnan, vencedor do Prêmio Nobel de Química, uma pessoa que completa 108 anos tem aproximadamente 50% de probabilidade de sobreviver aos 12 meses seguintes. A estatística revela uma questão intrigante: por que a medicina consegue aumentar a expectativa de vida, mas ainda encontra dificuldades para ampliar seus limites máximos?
O que acontece com nossas chances de sobrevivência à medida que envelhecemos?

O envelhecimento provoca mudanças graduais no funcionamento do organismo, aumentando a vulnerabilidade a doenças e complicações.
Em seu livro Por que morremos: a nova ciência do envelhecimento e a busca pela imortalidade, Venki Ramakrishnan apresenta estimativas que ilustram como o risco de morte cresce com a idade.
Aos 25 anos, o risco anual de morte seria de aproximadamente 0,1%. Aos 60, chegaria a 1%. Aos 80, alcançaria 6%, subindo para 16% aos 100 anos.
Perto dos 108 anos, a probabilidade de sobreviver mais um ano se aproximaria de 50%.
Esses números não significam que todas as pessoas envelheçam da mesma maneira, mas mostram como a mortalidade aumenta nas idades avançadas.
Por que a humanidade ainda não superou os 122 anos?

O recorde de longevidade humana documentada continua pertencendo à francesa Jeanne Calment, que morreu em 1997, aos 122 anos e 164 dias.
Desde então, ninguém ultrapassou oficialmente essa marca.
O fato chama atenção porque a expectativa de vida aumentou consideravelmente nos últimos 150 anos.
Vacinas, antibióticos, saneamento básico, alimentação e tratamentos médicos permitiram que muito mais pessoas chegassem à velhice.
Entretanto, existe uma diferença entre aumentar a expectativa de vida e ampliar a longevidade máxima.
A primeira significa reduzir mortes prematuras e permitir que mais indivíduos vivam por décadas. A segunda exige superar os limites biológicos observados nas idades extremas.
Ramakrishnan considera que curar doenças isoladamente talvez não seja suficiente para produzir aumentos radicais na duração da vida humana.
O verdadeiro problema está dentro das células
O organismo possui mecanismos responsáveis por reparar danos ao DNA, reciclar proteínas e manter o funcionamento das mitocôndrias, estruturas que participam da produção de energia celular.
Com o envelhecimento, esses sistemas podem perder eficiência.
O resultado é o acúmulo progressivo de alterações celulares que afetam tecidos e órgãos.
Além disso, surgem mutações somáticas, alterações genéticas adquiridas ao longo da vida que podem interferir no funcionamento das células.
O desafio científico consiste em compreender como esses processos se relacionam e se seria possível retardá-los sem provocar consequências indesejadas.
Ramakrishnan ressalta que não existe uma lei física conhecida que impeça os seres humanos de viver 150 ou 200 anos.
Entretanto, isso não significa que a biologia atual permita alcançar essas idades.
Cientistas investigam maneiras de desacelerar o envelhecimento
Entre as estratégias estudadas está a restrição calórica, que demonstrou efeitos sobre a longevidade de diferentes organismos em laboratório.
Outra possibilidade envolve a rapamicina, medicamento que atua na via celular mTOR, relacionada ao crescimento e ao metabolismo.
Em um estudo publicado na revista Nature, pesquisadores observaram que a rapamicina prolongou a vida de camundongos, mesmo quando administrada em idades avançadas.
Entretanto, o medicamento pode provocar efeitos adversos importantes, incluindo alterações na resposta imunológica.
Também existem pesquisas envolvendo metformina e medicamentos da família dos agonistas de GLP-1, mas ainda não há evidências suficientes de que prolonguem a vida de pessoas saudáveis.
Outra abordagem experimental é a reprogramação celular, que procura recuperar características de células mais jovens. Apesar do potencial, a técnica apresenta riscos, incluindo a formação de tumores.
Existe realmente um limite para a vida humana?
A resposta continua sendo debatida.
Em 2018, um estudo publicado na revista Science analisou dados de 3.836 italianos com pelo menos 105 anos.
Os pesquisadores observaram que a mortalidade parecia estabilizar-se nas idades mais avançadas, em torno de 50% ao ano.
Essa descoberta sugeriu que talvez não exista uma idade máxima rigidamente determinada.
Entretanto, outros cientistas questionaram os resultados, argumentando que erros nos registros de idade poderiam influenciar as estimativas.
Pesquisas posteriores também encontraram evidências de uma possível estabilização da mortalidade entre supercentenários, sem encerrar a controvérsia.
O que a ciência recomenda para viver mais?
Enquanto tratamentos capazes de reverter o envelhecimento permanecem experimentais, as estratégias mais bem estabelecidas continuam relativamente simples.
Praticar atividade física, evitar o tabagismo, manter uma alimentação equilibrada, dormir adequadamente e controlar fatores de risco cardiovascular ajudam a aumentar as chances de viver mais e com melhor saúde.
Nenhuma dessas medidas garante chegar aos 100 anos, muito menos superar o recorde de Jeanne Calment.
A grande questão para a ciência não é apenas acrescentar anos à existência, mas preservar a autonomia e a qualidade de vida durante o envelhecimento.
Para Ramakrishnan, compreender os mecanismos celulares que determinam nossa longevidade será fundamental para descobrir até onde a vida humana pode chegar.