Adolescentes afirmando com convicção “sou bipolar” ou “tenho TDAH” sem nunca terem passado por avaliação especializada deixaram de ser exceção. Psiquiatras relatam que o fenômeno do autodiagnóstico cresceu nos últimos anos, impulsionado pelas redes sociais e pelo acesso facilitado à inteligência artificial.
A tendência reacendeu um debate entre especialistas: até que ponto a informação empodera — e quando ela passa a patologizar experiências normais da adolescência?
Quando a angústia vira diagnóstico
A psiquiatra infantojuvenil Silvia Ongini, do Hospital de Clínicas de Buenos Aires, afirma observar com frequência adolescentes que chegam ao consultório já rotulados.
Segundo ela, muitos jovens tentam explicar angústias típicas da idade — insegurança, crises existenciais, mudanças de humor — por meio de diagnósticos psiquiátricos encontrados online.
Em vez de viver a instabilidade própria da adolescência, transformam o mal-estar em categorias clínicas como ansiedade generalizada, depressão ou transtorno bipolar.
Especialistas destacam que a adolescência sempre foi um período de busca por identidade. No passado, isso se expressava em tribos urbanas, estilos musicais ou modos de vestir. Hoje, para alguns jovens, a identidade parece estar sendo construída a partir do “o que eu tenho” em vez do “quem eu sou”.
O papel da inteligência artificial

O psiquiatra Pedro Kestelman, presidente da Associação Argentina de Psiquiatria Infantojuvenil, relata que muitos adolescentes confirmam com chats de IA aquilo que ouvem no consultório.
Segundo ele, a inteligência artificial costuma responder com base em questionários padronizados. Embora essas ferramentas possam oferecer orientação inicial, não substituem a avaliação clínica ampla, que considera contexto familiar, histórico de desenvolvimento e funcionamento social.
A preocupação é que respostas automatizadas reforcem rótulos sem aprofundar nuances. Um sintoma isolado pode ter múltiplas causas — e nem sempre configura um transtorno.
Informação pode ser aliada
Nem todos os especialistas veem o fenômeno apenas como negativo. A psiquiatra Juana Poulisis, que trabalha com adolescentes há décadas, considera positivo que os jovens estejam mais informados sobre saúde mental.
Para ela, há diferença entre chegar ao consultório dizendo “acho que posso ter depressão” e usar um diagnóstico como identidade fixa ou justificativa para comportamentos.
A informação pode facilitar o acesso ao tratamento quando há, de fato, um transtorno. O problema surge quando o rótulo substitui a avaliação médica ou quando sintomas comuns são automaticamente interpretados como doença.
Especialistas lembram que ansiedade, por exemplo, é uma emoção natural. Só se torna transtorno quando é persistente, intensa e causa prejuízo significativo na vida da pessoa.
Entre subdiagnóstico e excesso de rótulos

O debate acontece em um cenário complexo. Dados internacionais mostram aumento de transtornos mentais entre adolescentes nos últimos anos. Ao mesmo tempo, ainda há subdiagnóstico e dificuldade de acesso a tratamento adequado.
Psiquiatras alertam que tanto o excesso quanto a ausência de diagnóstico são problemáticos. Rótulos precipitados podem limitar o desenvolvimento do jovem, criando crenças rígidas sobre si mesmo. Por outro lado, ignorar sinais reais de sofrimento pode atrasar intervenções importantes.
Há também um fenômeno paralelo: pais que chegam ao consultório convencidos de que o filho tem autismo ou déficit de atenção após pesquisas online, enquanto deixam de observar aspectos fundamentais do cotidiano, como interação social ou tempo excessivo de tela.
O desafio da nova geração
A popularização da linguagem da saúde mental nas redes sociais tornou termos clínicos parte do vocabulário cotidiano. Isso ajuda a reduzir estigmas, mas também pode banalizar diagnósticos complexos.
Especialistas defendem que o caminho está no equilíbrio: usar a tecnologia como ponto de partida, não como veredito final.
A adolescência é, por definição, uma fase de instabilidade, construção e experimentação. Transformar cada desconforto em patologia pode impedir que o jovem desenvolva tolerância à frustração e recursos internos para lidar com a vida adulta.
Buscar ajuda profissional diante do sofrimento é essencial. Mas encontrar identidade apenas no que se sofre pode ser um risco silencioso em uma geração que cresce conectada — e constantemente em busca de respostas rápidas para perguntas profundas.
[ Fonte: La Nación ]