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Ciência

Cientistas descobriram que o derretimento da Groenlândia pode liberar enormes reservas de metano presas sob o oceano — e isso acende um novo alerta climático global

Um estudo publicado na revista Nature Geoscience revelou um mecanismo até então pouco compreendido: a água do degelo da Groenlândia pode desestabilizar rapidamente depósitos submarinos de metano congelado. O fenômeno preocupa porque esse gás possui um poder de aquecimento muito superior ao do CO₂ e pode acelerar ainda mais a crise climática.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante anos, as imagens mais simbólicas do aquecimento global foram geleiras desmoronando, icebergs gigantes se desprendendo e oceanos avançando sobre regiões costeiras. Mas um novo estudo mostra que uma das ameaças mais perigosas talvez esteja escondida muito mais fundo — sob o fundo marinho do Ártico.

Pesquisadores descobriram evidências de que o degelo acelerado da Groenlândia pode estar ativando um mecanismo capaz de liberar enormes quantidades de metano aprisionadas há milhares de anos nos sedimentos submarinos.

O trabalho, publicado na revista científica Nature Geoscience, sugere que o processo pode ocorrer de forma muito mais rápida e abrupta do que os cientistas imaginavam até agora.

Uma “bomba climática” escondida sob o oceano

Europa Perfura O Gelo Da Antártida
© X – @ecoticiasRED

O foco da pesquisa está na plataforma continental do noroeste da Groenlândia, uma região coberta por sedimentos marinhos ricos em hidratos de metano.

Esses hidratos são estruturas congeladas que armazenam gás metano sob altas pressões e baixas temperaturas. Durante décadas, cientistas acreditaram que eles permaneciam relativamente estáveis, degradando-se apenas lentamente com o aumento gradual da temperatura dos oceanos.

Mas o novo estudo aponta um cenário diferente.

Segundo os pesquisadores, a água doce gerada pelo derretimento do gelo infiltrou-se rapidamente nos sedimentos submarinos, alterando a química local e destabilizando esses depósitos congelados de gás.

Na prática, a água do degelo teria funcionado como uma espécie de “solvente geológico”, acelerando a liberação do metano.

O que os cientistas encontraram no fundo do mar

A descoberta foi baseada em amostras coletadas durante a Expedição 400 do Programa Internacional de Descoberta Oceânica, uma das maiores iniciativas científicas de perfuração marinha do mundo.

Os pesquisadores analisaram núcleos de sedimentos retirados próximos à Baía de Melville, na Groenlândia. O que chamou atenção foi a presença de camadas com concentrações de metano muito menores do que o esperado.

Algo havia esvaziado aqueles reservatórios subterrâneos.

A confirmação veio através de imagens sísmicas 3D de alta resolução. Os cientistas identificaram no fundo marinho pequenas crateras chamadas pockmarks, normalmente associadas a vazamentos violentos de fluidos e gases.

Também foram encontradas estruturas geológicas indicando migração rápida de metano das camadas profundas em direção à superfície do oceano.

Tudo sugere que houve episódios relativamente rápidos de liberação maciça de gás durante o último ciclo glacial.

O metano é muito mais poderoso que o CO₂

Embora o dióxido de carbono seja o principal símbolo do debate climático, o metano é consideravelmente mais potente no curto prazo.

Durante cerca de 20 anos após ser liberado na atmosfera, ele pode reter aproximadamente 80 vezes mais calor do que o CO₂.

Isso transforma os hidratos de metano em uma espécie de “gigante adormecido” do sistema climático terrestre.

Estimativas apontam que o permafrost e os fundos oceânicos armazenam cerca de 1.800 gigatoneladas de metano congelado — uma quantidade gigantesca de carbono acumulado ao longo de milhares de anos.

Até recentemente, acreditava-se que a maior parte desse material permaneceria presa por eras geológicas. O novo estudo, porém, sugere que alguns desses depósitos podem responder rapidamente às mudanças ambientais atuais.

O Ártico está aquecendo muito mais rápido que o resto do planeta

Cientistas descobrem movimento inesperado sob o gelo da Groenlândia
© http://x.com/Tiredearth/

O problema se torna ainda mais preocupante porque o Ártico aquece quase quatro vezes mais rápido que a média global.

Todos os anos, a Groenlândia despeja enormes volumes de água doce no oceano devido ao derretimento acelerado das geleiras. Esse fluxo altera salinidade, pressão e composição química dos sedimentos submarinos.

Segundo os pesquisadores, essas mudanças podem desencadear reações em cadeia ainda pouco compreendidas.

Os cientistas destacam que não existe evidência de um colapso climático imediato causado por esses depósitos de metano. Mas a descoberta mostra que mecanismos rápidos de liberação realmente existem — e isso muda parte importante da compreensão sobre o futuro climático do planeta.

O Ártico virou um laboratório acelerado das mudanças climáticas

O estudo também se conecta a outros fenômenos observados recentemente em regiões polares.

Na Rússia, cientistas já documentaram enormes crateras provocadas pelo degelo do permafrost e pela acumulação de gases subterrâneos. No Mar da Sibéria Oriental, diversas expedições detectaram colunas de metano emergindo diretamente do fundo oceânico.

Pesquisas no Canadá e no Alasca indicam ainda que o permafrost contém muito mais carbono armazenado do que se estimava anteriormente.

Para especialistas, o Ártico está funcionando como uma espécie de laboratório climático em tempo acelerado, onde processos que antes levavam séculos começam a acontecer em poucas décadas.

E isso preocupa porque o aquecimento global deixa de depender apenas das emissões humanas atuais. Passa também a envolver enormes quantidades de carbono antigo que podem começar a escapar naturalmente como consequência do próprio aquecimento já acumulado no planeta.

 

[ Fonte: Ecoinventos ]

 

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