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Ciência

Cientistas encontraram uma rainha de formigas capaz de gerar descendentes de duas espécies diferentes — e isso desafia tudo o que a biologia acreditava sobre evolução

Pesquisadores descobriram um fenômeno extraordinário escondido em colônias subterrâneas de formigas no Mediterrâneo. Uma única rainha consegue produzir indivíduos pertencentes a duas espécies distintas usando um mecanismo biológico jamais observado antes. A descoberta levou cientistas a criar um novo conceito evolutivo e reacendeu debates sobre os próprios limites do que chamamos de “espécie”.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante séculos, a biologia trabalhou com uma ideia relativamente clara: espécies diferentes possuem limites reprodutivos definidos. Mesmo quando ocorre cruzamento entre espécies próximas, normalmente surgem indivíduos estéreis ou inviáveis.

Mas um grupo de formigas subterrâneas acaba de mostrar que a natureza pode ser muito mais estranha — e criativa — do que os livros tradicionais imaginavam.

Pesquisadores liderados por Jonathan Romiguier, da Universidade de Montpellier, descobriram um sistema reprodutivo absolutamente incomum em colônias da espécie Messor ibericus.

A descoberta, publicada na revista Nature, descreve um mecanismo no qual uma rainha consegue produzir descendentes associados a duas espécies diferentes dentro da mesma colônia.

O fenômeno é tão incomum que os cientistas precisaram criar um novo termo biológico para descrevê-lo.

O mistério começou com um DNA impossível

1cientistas Encontraram Uma Rainha De Formigas Capaz De Gerar Descendentes De Duas Espécies Diferentes
© Jonathan Romiguier.

Tudo começou quando os pesquisadores analisaram geneticamente operárias de colônias subterrâneas encontradas na região mediterrânea.

Os resultados pareciam impossíveis.

As operárias apresentavam mistura genética de duas espécies distintas: Messor ibericus e Messor structor.

O detalhe intrigante era que, em algumas regiões estudadas, apenas uma das espécies estava presente fisicamente. Mesmo assim, o DNA das duas aparecia misturado dentro da colônia.

A pergunta surgiu imediatamente: como aquelas rainhas conseguiam produzir descendentes híbridos sem contato direto com machos da outra espécie?

Escavar os ninhos revelou algo ainda mais estranho

Os cientistas então decidiram aprofundar a investigação. Eles escavaram mais de 50 ninhos subterrâneos e analisaram geneticamente 132 indivíduos diferentes.

Foi aí que o fenômeno ficou ainda mais surpreendente.

Algumas rainhas de Messor ibericus estavam produzindo dois tipos de machos completamente distintos: alguns peludos, típicos da própria espécie, e outros sem pelos, praticamente idênticos aos machos de Messor structor.

A genética revelou a explicação.

Todos os indivíduos compartilhavam o DNA mitocondrial da rainha-mãe. Ou seja: aqueles machos “da outra espécie” estavam sendo produzidos dentro do corpo da rainha de forma clonal.

Na prática, a rainha estava criando descendentes geneticamente ligados a outra espécie.

Os cientistas criaram um novo conceito: xenoparidade

Diante do fenômeno inédito, os pesquisadores propuseram um novo termo científico: xenoparidade.

A palavra significa literalmente “dar à luz ao que é estrangeiro”.

Segundo o estudo, a rainha utiliza o esperma armazenado em um órgão chamado espermateca de uma maneira completamente incomum. Em vez de combinar geneticamente os materiais reprodutivos, ela consegue eliminar o próprio DNA em determinados casos e replicar apenas o material genético masculino da outra espécie.

O resultado é a produção de machos clonais pertencentes geneticamente à linhagem de Messor structor.

Esse sistema garante algo fundamental para a sobrevivência da colônia: a produção das operárias híbridas responsáveis por praticamente todo o funcionamento do ninho.

Uma parceria evolutiva extremamente arriscada

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© Jonathan Romiguier.

O mecanismo criou uma dependência biológica impressionante entre as duas espécies.

As rainhas de Messor ibericus já não conseguem produzir operárias funcionais sem utilizar genes da outra espécie. Ao mesmo tempo, os machos clonais derivados de Messor structor praticamente perderam a capacidade de existir em colônias independentes.

Eles sobrevivem apenas dentro desse sistema compartilhado.

Para os cientistas, trata-se de um exemplo radical de cooperação evolutiva — mas também de um equilíbrio extremamente frágil.

Como não existe recombinação genética normal nesses machos clonais, mutações podem se acumular ao longo das gerações. Em algum momento, isso pode comprometer toda a estabilidade do sistema reprodutivo.

O estudo coloca em xeque a própria definição de “espécie”

Talvez a consequência mais fascinante da descoberta seja filosófica.

Se uma rainha consegue literalmente produzir filhos geneticamente ligados a outra espécie, até que ponto ainda faz sentido enxergar essas espécies como entidades completamente separadas?

A biologia moderna já sabe que a evolução não funciona como categorias rígidas e perfeitas. Mas esse caso leva a discussão a um novo nível.

Em um pequeno ecossistema subterrâneo escondido no Mediterrâneo, formigas desenvolveram uma estratégia que parece desafiar milhões de anos de regras evolutivas tradicionais.

E, como costuma acontecer nas grandes descobertas científicas, quanto mais os pesquisadores entendem sobre a vida… mais percebem o quanto ela ainda consegue surpreender.

 

 

 

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