O Brasil acordou para um problema que vinha crescendo longe dos holofotes. A primeira avaliação nacional da formação médica mostrou falhas profundas em parte significativa das faculdades de Medicina. O impacto vai além das salas de aula: envolve a segurança dos pacientes, a sustentabilidade do sistema público e a capacidade do país de formar profissionais preparados para atender uma população de mais de 200 milhões de pessoas, em um território vasto e desigual.
Um terço dos cursos abaixo do mínimo e 13 mil formandos reprovados
A estreia do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) avaliou cerca de 350 cursos, públicos e privados, e quase 90 mil estudantes. Foram considerados insatisfatórios os programas em que menos de 40% dos alunos demonstraram conhecimentos básicos para a prática médica.
O dado que mais chocou foi o desempenho de aproximadamente 13 mil estudantes do último semestre, que não atingiram o nível mínimo exigido. Em outras palavras: jovens prestes a começar a atender pacientes falharam em uma prova concebida justamente para medir competências essenciais. O Conselho Federal de Medicina já discute mecanismos para impedir que esses recém-formados atuem sem uma requalificação adequada.
As piores notas se concentraram, sobretudo, em faculdades municipais e em instituições privadas com fins lucrativos. Embora os alunos não sofram punições diretas, as escolas com desempenho fraco passam a enfrentar restrições: ficam impedidas de ampliar vagas e podem ser obrigadas a reduzi-las.
Expansão acelerada e qualidade em xeque

O ministro da Educação, Camilo Santana, defendeu a avaliação mesmo diante dos resultados negativos. Segundo ele, o objetivo não é penalizar estudantes, mas forçar universidades a revisarem infraestrutura, laboratórios e corpo docente. Santana também revelou que, entre 2016 e 2022, o número de vagas em cursos privados de Medicina praticamente dobrou — um crescimento que ajuda a explicar a heterogeneidade da qualidade.
A avaliação também escancarou um paradoxo: mensalidades altas não garantem excelência acadêmica. Levantamento da Veja mostra que cursos com notas 1 ou 2 (em escala de 1 a 5) cobram entre US$ 1.100 e US$ 2.600 por mês, valores proibitivos em um país onde o salário mínimo gira em torno de US$ 313.
Não surpreendeu o fato de universidades federais públicas figurarem entre as melhores colocadas, tradicionalmente reconhecidas pela qualidade do ensino e da pesquisa.
Um sistema público gigantesco e a dificuldade de levar médicos ao interior
Desde 1988, o país mantém o Sistema Único de Saúde (SUS), maior rede pública de saúde do mundo em número de usuários, responsável por garantir atendimento básico até nas regiões mais remotas. Em artigo no jornal Folha de S.Paulo, o médico Drauzio Varella lembra que nenhum outro país com mais de 100 milhões de habitantes ousou oferecer acesso universal à saúde.
O desafio sempre foi preencher esse sistema com profissionais, sobretudo em municípios isolados e menos atraentes. Houve períodos em que prefeituras disputavam médicos como em um mercado de transferências, oferecendo salários cada vez mais altos.
Para enfrentar o problema, a então presidente Dilma Rousseff lançou, em 2013, o programa Mais Médicos, que trouxe milhares de profissionais cubanos para áreas carentes. A iniciativa gerou controvérsia e foi encerrada durante o governo Jair Bolsonaro.
Com o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva ao Planalto em 2023, o programa foi reformulado e ampliado, priorizando médicos brasileiros. Em três anos, o número de profissionais mobilizados passou de cerca de 13 mil para mais de 27 mil.
Risco ao paciente e reação das entidades médicas

Os resultados do Enamed provocaram forte reação de conselhos profissionais e associações hospitalares. Francisco Balestrin, presidente do sindicato de hospitais privados de São Paulo, afirmou que um médico sem formação mínima tende a solicitar exames desnecessários, prescrever inadequadamente e indicar procedimentos que não se justificam — práticas que prejudicam pacientes, elevam custos e aumentam o risco de ações judiciais.
Para as entidades, o cenário é alarmante: a combinação de expansão acelerada, fiscalização limitada e formação desigual ameaça a qualidade do atendimento em todo o país.
Um debate que vai além da sala de aula
A crise revelada pelo Enamed toca em questões estruturais: quem deve abrir faculdades, como garantir padrões mínimos e de que forma equilibrar a necessidade urgente de médicos com a qualidade da formação. Também expõe as tensões entre setor público e privado em um país marcado por profundas desigualdades.
Ao colocar números concretos sobre a mesa, o exame transformou um problema difuso em urgência nacional. Agora, governo, universidades e conselhos profissionais terão de decidir como corrigir o rumo — antes que milhares de médicos cheguem aos consultórios sem a preparação que os pacientes esperam e merecem.
[ Fonte: El País ]