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Brasil e Argentina já entraram em guerra? A história revela conflitos, disputas territoriais e uma rivalidade que durou quase dois séculos

Muito antes das tensões entre Lula e Javier Milei, Brasil e Argentina travaram guerras, disputaram territórios e viveram décadas de desconfiança. A paz definitiva só começou a ganhar força com o Mercosul.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A rivalidade entre Brasil e Argentina costuma ser lembrada por provocações no futebol ou divergências políticas ocasionais. Mas a história entre os dois maiores países da América do Sul é muito mais complexa. Ao longo dos séculos, brasileiros e argentinos estiveram em lados opostos em guerras, disputaram fronteiras, quase chegaram a novos conflitos militares e passaram décadas competindo pela liderança regional. Entender esse passado ajuda a explicar por que as relações entre os dois vizinhos sempre foram marcadas por uma mistura de cooperação e desconfiança.

Brasil e Argentina já lutaram em guerras antes mesmo de se tornarem como são hoje

Brasil e Argentina já entraram em guerra? A história revela conflitos, disputas territoriais e uma rivalidade que durou quase dois séculos
© Pexels

Ao contrário do que muita gente imagina, Brasil e Argentina realmente já estiveram em guerra.

Segundo historiadores, os primeiros confrontos remontam ao período em que os dois países ainda estavam em formação. Na época, o Brasil era um império recém-independente de Portugal, enquanto a Argentina ainda vivia um longo processo de organização política após a independência da Espanha.

A primeira guerra foi a Guerra da Cisplatina, travada entre 1825 e 1828.

O conflito tinha como principal objetivo controlar a Província Cisplatina, território que hoje corresponde à maior parte do Uruguai. A região havia sido incorporada ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves em 1821 e permaneceu ligada ao Império do Brasil após a independência.

A situação mudou quando um movimento conhecido como Trinta e Três Orientais declarou a separação da província com apoio de Buenos Aires. Em resposta, Dom Pedro I declarou guerra.

Depois de anos de combates terrestres e navais, nenhuma das partes conseguiu impor uma vitória definitiva. Com mediação britânica, foi firmado um acordo que deu origem ao Uruguai, criado como um Estado independente que funcionaria como uma espécie de país-tampão entre Brasil e Argentina, reduzindo as disputas pelo controle da região do Rio da Prata.

Uma segunda guerra colocou os dois países novamente em lados opostos

Poucas décadas depois, Brasil e Argentina voltariam a se enfrentar.

Entre 1851 e 1852 ocorreu a Guerra do Prata, motivada principalmente pelos planos do líder argentino Juan Manuel de Rosas de ampliar sua influência sobre Paraguai e Uruguai.

Temendo uma expansão argentina que ameaçasse seus interesses estratégicos, o Império do Brasil formou uma aliança com forças uruguaias, paraguaias e grupos argentinos contrários ao governo de Rosas.

O confronto terminou com a decisiva Batalha de Monte Caseros, em 1852.

A derrota levou à queda de Rosas, que acabou exilado no Reino Unido. Para o Brasil, o resultado impediu o fortalecimento de um projeto regional que poderia alterar o equilíbrio de poder na América do Sul.

Curiosamente, poucos anos depois, antigos adversários se tornariam aliados.

Na Guerra do Paraguai, entre 1864 e 1870, Brasil, Argentina e Uruguai integraram a Tríplice Aliança contra o Paraguai, embora divergências diplomáticas continuassem presentes durante e após o conflito.

A rivalidade continuou mesmo sem novos conflitos armados

Depois das guerras do século XIX, Brasil e Argentina deixaram de travar confrontos militares diretos, mas as tensões permaneceram.

Uma das principais ocorreu na chamada Questão de Palmas, entre 1890 e 1895.

Os dois países reivindicavam uma extensa área localizada onde hoje ficam partes dos estados do Paraná e de Santa Catarina.

Sem recorrer às armas, a disputa foi levada à arbitragem internacional. O responsável pela decisão foi o então presidente dos Estados Unidos, Grover Cleveland.

O Brasil venceu graças ao trabalho diplomático liderado pelo Barão do Rio Branco, que reuniu uma ampla documentação baseada no princípio jurídico do uti possidetis, segundo o qual pertence o território a quem efetivamente o ocupa.

Ao longo do século XX, novos episódios de desconfiança voltaram a surgir.

O fortalecimento da Marinha brasileira incomodou setores políticos argentinos no início dos anos 1900 e chegou a alimentar discursos favoráveis a um confronto militar.

Décadas depois, durante a Segunda Guerra Mundial, a aproximação do Brasil com os Estados Unidos também despertou receios em Buenos Aires.

Itaipu, energia nuclear e a longa “guerra fria” entre os vizinhos

Talvez o período de maior tensão sem conflito armado tenha ocorrido durante as ditaduras militares.

Enquanto o Brasil construía a Usina de Itaipu, entre as décadas de 1970 e 1980, autoridades argentinas manifestavam preocupação com os impactos estratégicos da hidrelétrica.

Ao mesmo tempo, Brasil e Argentina desenvolviam programas nucleares próprios voltados oficialmente para geração de energia.

Apesar do caráter civil dos projetos, ambos os governos acompanhavam com cautela os avanços do vizinho, alimentando um clima de desconfiança que muitos historiadores classificam como uma verdadeira “guerra fria” sul-americana.

Essa rivalidade começou a perder força apenas com a redemocratização dos dois países.

Os presidentes José Sarney e Raúl Alfonsín iniciaram um processo de aproximação baseado na cooperação econômica e política, que culminou na criação do Mercosul em 1991.

O tratado marcou uma mudança histórica na relação bilateral.

Embora divergências políticas continuem surgindo, como ocorre atualmente entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Javier Milei, especialistas avaliam que elas estão muito distantes das disputas militares e territoriais que marcaram quase dois séculos da história entre Brasil e Argentina.

Hoje, a competição mais intensa entre os dois países acontece, felizmente, dentro dos gramados.

[Fonte: G1]

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