Imagine receber algumas horas de eletricidade totalmente gratuita todos os dias. A proposta parece boa demais para ser verdade — e, em parte, é justamente aí que começa a história. A Austrália criou um programa para aproveitar melhor o enorme volume de energia solar produzido durante o meio do dia e incentivar as famílias a mudar seus hábitos de consumo. O problema apareceu quando alguns consumidores olharam com mais atenção para o restante da conta.
O problema que o sol deixou para trás
Países que instalaram grandes quantidades de painéis solares enfrentam um paradoxo cada vez mais evidente. Quando o sol está forte, a produção de eletricidade dispara. Mas esse não é necessariamente o momento em que as famílias mais consomem energia.
O pico da demanda residencial costuma acontecer entre o fim da tarde e o início da noite, aproximadamente das 18h às 22h. Nesse período, a geração solar começa a cair justamente quando milhões de pessoas voltam para casa, ligam o ar-condicionado, preparam o jantar, tomam banho e colocam aparelhos para funcionar.
O resultado é um enorme desencontro entre oferta e demanda.
A solução encontrada pela Austrália foi tentar mudar o comportamento dos consumidores. Em vez de simplesmente produzir cada vez mais energia para atender ao pico noturno, por que não estimular as famílias a consumir mais quando a eletricidade solar está sobrando?
Foi com essa lógica que surgiu o Solar Sharer Offer (SSO), lançado em 1º de julho de 2026 em Nova Gales do Sul, Austrália Meridional e no sudeste de Queensland.
A proposta chama atenção por um detalhe incomum: grandes comercializadoras passaram a ser obrigadas a oferecer pelo menos um plano residencial com um período diário de eletricidade gratuita.
Mas existe uma condição importante. E ela ajuda a entender por que a experiência australiana é mais complexa do que parece à primeira vista.

Até 24 kWh podem custar zero
Nas regiões abrangidas pelo programa, empresas de energia com mais de mil clientes precisam disponibilizar uma tarifa que ofereça três horas diárias de eletricidade gratuita.
Em Nova Gales do Sul e Queensland, a janela vai das 11h às 14h. Na Austrália Meridional, ocorre entre 12h e 15h.
O consumidor não precisa ter painéis solares instalados em casa, nem ser proprietário do imóvel. Basta possuir um medidor inteligente capaz de identificar quanto foi consumido durante o período determinado.
Existe ainda um limite: até 24 kWh por dia podem ser consumidos gratuitamente. Segundo o governo australiano, esse volume seria suficiente para atender às necessidades de uma família de cinco pessoas.
Na prática, a ideia é fazer com que os moradores antecipem tarefas que normalmente aconteceriam mais tarde. Máquina de lavar, secadora, lava-louças, forno, aquecimento e ar-condicionado podem ser programados para funcionar justamente quando a energia solar está mais abundante.
Isso ajuda a reduzir a pressão sobre a rede no horário de pico e, em teoria, também permite que o consumidor economize.
O modelo poderia até parecer interessante para outros países. A Espanha, por exemplo, já possui uma ampla utilização de medidores inteligentes e enfrenta períodos em que a produção renovável é tão elevada que os preços da eletricidade podem despencar ou até ficar negativos.
Mas existe uma armadilha.
A conta pode ficar mais cara quando o sol vai embora
O grande problema está naquilo que acontece fora das três horas gratuitas.
Em Sydney, consumidores e organizações começaram a questionar algumas das tarifas oferecidas dentro do programa. Segundo Gavin Gilchrist, gerente de projetos da Inner West Community Energy, determinados planos apresentavam custos de fornecimento e tarifas de consumo nos horários de pico significativamente superiores aos de outras ofertas disponíveis no mercado.
Em alguns casos, os valores chegariam a quase o dobro.
Isso muda completamente a percepção sobre a iniciativa. Afinal, não basta oferecer energia gratuita ao meio-dia se o consumidor acaba pagando muito mais caro durante as horas em que realmente precisa utilizar eletricidade.
A experiência australiana funciona, portanto, como um alerta para qualquer país que pretenda copiar o modelo. O incentivo para consumir energia solar durante o dia pode ser tecnicamente inteligente, mas precisa vir acompanhado de regras que impeçam as comercializadoras de recuperar essa diferença aumentando excessivamente os preços no restante do dia.
A ideia central continua sendo boa: usar a eletricidade quando ela está sobrando e reduzir a pressão sobre a rede quando a demanda dispara.
O que a Austrália está descobrindo é que transformar essa ideia em benefício real para o consumidor depende de algo muito menos chamativo do que a promessa de energia grátis: olhar cuidadosamente para a tarifa inteira.