Há poucos anos, um carro elétrico chinês ainda era uma novidade difícil de encontrar fora do mercado asiático. Hoje, marcas como BYD, Xiaomi, XPeng e Geely disputam espaço com fabricantes tradicionais em vários países. Agora, essas empresas estão levando a mesma experiência para um território muito diferente. E os primeiros números indicam que a transformação pode estar acontecendo ainda mais rápido do que muitos imaginavam.
A receita que funcionou com os carros agora ganhou duas pernas
A estratégia chinesa no setor automotivo não surgiu por acaso. Produção em grande escala, fornecedores locais, domínio de componentes e preços competitivos ajudaram fabricantes como BYD, XPeng, Chery, Leapmotor, Geely e Xiaomi a conquistar espaço em um mercado que durante décadas foi dominado por empresas ocidentais, japonesas e sul-coreanas.
Agora, parte dessa indústria está mirando outro tipo de máquina.
Os robôs humanoides, projetados para caminhar, manipular objetos e realizar tarefas em ambientes originalmente construídos para pessoas, estão se tornando uma das grandes apostas da indústria tecnológica.
E a China parece estar tentando repetir a fórmula que funcionou com os veículos elétricos: desenvolver rapidamente a tecnologia, controlar a cadeia de fornecimento, produzir em escala e reduzir os custos.
Os resultados iniciais chamam atenção.
Dados da Smart Analytics Global divulgados pela Bloomberg indicam que fabricantes chineses responderam por mais de 97% dos envios mundiais de robôs humanoides no primeiro semestre de 2026. No período, foram enviados cerca de 19.100 robôs em todo o mundo, mais de três vezes o volume registrado um ano antes.
A Agibot liderou com aproximadamente 8.400 unidades, enquanto a Unitree ficou perto de 5.900.

As fabricantes de carros estão entrando em um mercado completamente diferente
O domínio inicial não está restrito às empresas especializadas em robótica.
Fabricantes de automóveis também começaram a entrar nessa corrida. A BYD desenvolve seu próprio humanoide, a Xiaomi já utiliza um robô em uma de suas fábricas, a Nio estabeleceu parceria com startups do setor, a XPeng avança com o robô Iron e a Leapmotor prepara sua própria máquina.
Existe uma razão técnica para essa aproximação.
Um carro elétrico moderno já funciona, em muitos aspectos, como uma plataforma altamente automatizada. Ele utiliza câmeras e sensores para interpretar o ambiente, processadores para analisar informações em tempo real e sistemas capazes de tomar decisões rapidamente.
Um humanoide precisa de capacidades semelhantes para se movimentar pelo mundo real.
A diferença é que, em vez de quatro rodas, ele precisa controlar pernas, braços, equilíbrio e movimentos muito mais complexos.
As fabricantes chinesas também carregam outra vantagem: anos de experiência produzindo veículos em grandes volumes. Essa infraestrutura industrial pode ser adaptada para fabricar robôs com uma velocidade que empresas que estão começando do zero teriam dificuldade para alcançar.
Até a Tesla segue uma direção parecida com seu projeto Optimus, reforçando a ideia de que a fronteira entre indústria automotiva e robótica está ficando cada vez menos clara.
A disputa pode ser decidida muito antes de o robô chegar à sua casa
A corrida não acontece apenas dentro das fábricas.
O governo chinês colocou a robótica humanoide entre as prioridades de seu planejamento tecnológico, tratando o setor como parte importante da ambição do país de ampliar sua liderança em tecnologias avançadas.
Esse esforço também aparece na pesquisa. Entre 2020 e 2025, a China registrou mais de 5.600 patentes relacionadas à área, contra cerca de 1.500 dos Estados Unidos, segundo dados citados pelo SCMP.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos continuam tendo uma vantagem importante no desenvolvimento de modelos de inteligência artificial de fronteira.
Mas existe uma diferença fundamental entre criar um modelo sofisticado e fabricar centenas de milhares de máquinas físicas.
Para isso são necessários motores, sensores, baterias, atuadores, chips, componentes mecânicos e milhares de fornecedores capazes de entregar tudo em escala.
É justamente aí que a experiência acumulada pela indústria chinesa pode fazer diferença.
Um relatório da Morgan Stanley projeta que os fabricantes chineses poderão chegar a 446 mil robôs humanoides enviados por ano até 2030, contra uma estimativa de aproximadamente 50 mil unidades em 2026.
Se essa previsão se confirmar, a grande vantagem chinesa talvez não seja apenas fabricar robôs melhores.
E é nesse ponto que a história dos carros elétricos pode estar prestes a se repetir: primeiro vem a escala, depois a redução dos preços e, quando o mercado percebe, a tecnologia já mudou de categoria.