Imagine observar uma estrela sendo destruída por um buraco negro, acompanhar o desaparecimento de seu brilho e acreditar que o espetáculo terminou. Foi exatamente o que aconteceu com um grupo de astrônomos, até que, quase três anos depois, algo inesperado surgiu nos radiotelescópios. O objeto voltou a emitir sinais intensos, revelando um comportamento que continua desafiando os modelos científicos sobre os fenômenos mais extremos do Universo.
Uma estrela desapareceu, mas a história estava longe de terminar

Tudo começou em outubro de 2018, quando astrônomos identificaram um fenômeno conhecido como evento de ruptura por maré, ou TDE, na sigla em inglês.
O episódio aconteceu em uma galáxia localizada a aproximadamente 665 milhões de anos-luz da Terra. Uma estrela que passou perto demais de um buraco negro supermassivo acabou destruída pela intensa força gravitacional do objeto.
O fenômeno recebeu a identificação AT2018hyz e, inicialmente, parecia seguir um comportamento relativamente conhecido pelos pesquisadores.
A estrela foi despedaçada, parte de seu material começou a circular ao redor do buraco negro e a luminosidade produzida pelo evento diminuiu gradualmente.
Entretanto, quase três anos depois, os radiotelescópios registraram uma emissão inesperadamente intensa na mesma região.
O objeto, que havia permanecido silencioso em ondas de rádio, começou a brilhar novamente.
A descoberta foi apresentada em 2022 por pesquisadores do Centro de Astrofísica Harvard & Smithsonian, nos Estados Unidos.
A astrônoma Yvette Cendes, responsável por liderar a investigação, destacou que a equipe nunca havia observado um comportamento semelhante.
Como um buraco negro consegue destruir uma estrela?
Apesar do nome, buracos negros não funcionam como aspiradores cósmicos capazes de sugar automaticamente tudo ao redor.
Uma estrela pode orbitar um desses objetos durante muito tempo sem ser destruída. O problema surge quando ela se aproxima demais.
Nesse momento, a diferença entre a atração gravitacional exercida sobre o lado mais próximo e o mais distante da estrela pode se tornar extrema.
O resultado é um processo chamado espaguetificação.
A estrela é alongada e despedaçada, formando enormes correntes de gás que podem se espalhar pelo espaço.
Parte desse material se aproxima do buraco negro e forma um disco extremamente quente, enquanto outra parte pode escapar antes de cruzar o horizonte de eventos, a fronteira além da qual nada consegue retornar.
Essas interações podem produzir radiação intensa, detectável por telescópios mesmo a centenas de milhões de anos-luz.
No caso de AT2018hyz, os cientistas estimam que a estrela destruída possuía aproximadamente um décimo da massa do Sol.
O sinal inesperado que apareceu quase três anos depois
O aspecto mais intrigante da descoberta não foi a destruição da estrela, mas o que aconteceu posteriormente.
Durante os primeiros anos, os instrumentos não detectaram emissões significativas de rádio provenientes do evento.
Então, aproximadamente 972 dias após a descoberta inicial, uma poderosa emissão começou a aparecer.
As observações indicaram que material associado à estrela destruída estava produzindo ondas de rádio ao interagir com o ambiente ao redor.
É importante esclarecer que o buraco negro não devolveu matéria que já havia atravessado seu horizonte de eventos. O material expelido permaneceu fora dessa fronteira.
Uma das explicações propostas envolve um jato de partículas lançado em alta velocidade, cuja emissão só se tornou visível posteriormente.
Outra possibilidade é que o próprio lançamento do material tenha ocorrido com atraso, devido à complexa dinâmica do gás ao redor do buraco negro.
Os pesquisadores ainda investigam quais mecanismos explicam melhor o comportamento observado.
Novas observações revelaram que o fenômeno continuava crescendo
A história ganhou novos capítulos em 2026.
Uma pesquisa liderada por Yvette Cendes, agora vinculada à Universidade de Oregon, mostrou que as emissões de rádio de AT2018hyz continuavam aumentando vários anos depois da destruição da estrela.
Segundo os pesquisadores, o brilho em rádio alcançou níveis aproximadamente 50 vezes superiores aos registrados nas primeiras detecções.
O fenômeno tornou-se um dos eventos individuais mais energéticos já acompanhados nessa categoria.
Em comunicado divulgado pela Universidade de Oregon, os cientistas explicaram que a emissão poderia continuar aumentando antes de atingir seu máximo, possivelmente em 2027.
Essa previsão depende dos modelos utilizados e ainda precisa ser confirmada pelas observações.
O resultado é especialmente interessante porque demonstra que a atividade associada à destruição de uma estrela pode continuar evoluindo durante muitos anos.
Cientistas começam a entender por que alguns buracos negros demoram a reagir
Uma investigação publicada em setembro de 2026 na revista Nature Astronomy trouxe novas pistas para esse mistério.
Ao analisar observações de rádio de 20 eventos de ruptura por maré, os pesquisadores identificaram padrões que podem ajudar a explicar quando buracos negros produzem jatos de matéria.
Os resultados sugerem que essas emissões podem ocorrer em diferentes etapas do processo de alimentação do buraco negro, incluindo momentos em que a quantidade de matéria disponível diminui significativamente.
Isso pode explicar por que alguns objetos apresentam emissões tardias, enquanto outros produzem sinais logo após a destruição de uma estrela.
Entretanto, ainda não está estabelecido se um único mecanismo consegue explicar todos os casos observados.
Por que essa descoberta pode mudar a maneira como observamos o Universo?
O caso de AT2018hyz demonstra que acompanhar um fenômeno astronômico durante alguns meses pode não ser suficiente para compreender sua evolução.
Eventos aparentemente encerrados podem voltar a produzir sinais intensos anos depois.
Essa constatação tem consequências importantes para os programas de observação do céu.
Radiotelescópios e grandes levantamentos astronômicos precisarão considerar períodos mais longos de acompanhamento para identificar fenômenos semelhantes.
Além disso, compreender como buracos negros absorvem e expulsam matéria ajuda os cientistas a investigar a influência desses objetos sobre o gás e a evolução das galáxias.
O episódio também reforça uma ideia fundamental da astronomia moderna: mesmo fenômenos considerados relativamente conhecidos ainda podem apresentar comportamentos inesperados.
No caso desse buraco negro distante, o que parecia ser o final de uma estrela acabou revelando um processo muito mais longo e complexo do que os astrônomos imaginavam.