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Ciência

Cães gigantes envelhecem mais rápido? Novo estudo traz uma explicação surpreendente

Um amplo estudo revelou que cães de porte gigante vivem significativamente menos do que a média. Agora, cientistas investigam se a própria seleção feita pelos humanos pode estar acelerando esse processo.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Poucos animais impressionam tanto quanto um São Bernardo, um Dogue Alemão ou um Mastim. Seu tamanho desperta admiração, mas também levanta uma questão intrigante: por que esses gigantes costumam viver tão menos do que cães menores? Uma pesquisa baseada em milhões de registros veterinários começa a oferecer respostas e sugere que a origem desse fenômeno pode estar na forma como essas raças foram desenvolvidas ao longo dos últimos séculos.

Cães gigantes vivem menos e enfrentam mais problemas de saúde

Durante décadas, tutores e veterinários observaram que cães de grande porte costumavam envelhecer mais rapidamente. Agora, um dos maiores levantamentos já realizados sobre o tema reforça essa percepção com números expressivos.

Pesquisadores do programa VetCompass, do Royal Veterinary College, no Reino Unido, analisaram dados de mais de 2,25 milhões de cães atendidos em clínicas veterinárias. Entre eles, foram identificados mais de 28 mil animais pertencentes a 29 raças classificadas como gigantes.

Após examinar detalhadamente milhares de prontuários e mais de mil registros de mortalidade, os cientistas chegaram a uma conclusão clara: esses cães apresentam uma expectativa de vida significativamente menor do que a população canina em geral.

A idade mediana de morte encontrada foi de apenas 8,94 anos. Em estudos anteriores envolvendo cães de todos os portes, a mediana girava em torno de 12 anos. Na prática, isso representa uma redução de aproximadamente um quarto da vida.

Também surgiram diferenças entre machos e fêmeas. As fêmeas viveram, em média, um pouco mais, alcançando cerca de 9,3 anos, enquanto os machos apresentaram mediana de 8,5 anos.

As diferenças entre as raças também chamaram atenção. Algumas registraram longevidade muito inferior à média, enquanto outras ultrapassaram os 12 anos. Os pesquisadores ressaltam, porém, que esses valores refletem apenas os animais analisados e não representam necessariamente a expectativa de vida universal de cada raça.

Além da menor longevidade, os cães gigantes também apresentaram maior incidência de problemas médicos. Quase 74% tiveram pelo menos um transtorno veterinário registrado, percentual superior ao observado em estudos envolvendo cães de todos os tamanhos.

Entre as doenças mais frequentes apareceram problemas de pele, alterações musculoesqueléticas e doenças relacionadas aos ouvidos. Em paralelo, pesquisas anteriores já haviam mostrado que algumas dessas raças possuem risco muito elevado de desenvolver osteossarcoma, um tipo agressivo de câncer ósseo.

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© Magnific

O crescimento acelerado pode estar cobrando um preço biológico

À primeira vista, esse comportamento parece contradizer um padrão observado na natureza. Entre diferentes espécies de mamíferos, animais maiores normalmente vivem mais. Elefantes, por exemplo, possuem uma longevidade muito superior à de pequenos roedores.

Nos cães, porém, acontece exatamente o contrário.

Pesquisas publicadas nos últimos anos indicam que o envelhecimento das raças gigantes ocorre de forma acelerada após atingirem a fase adulta. Em vez de começarem a envelhecer antes, sua taxa de mortalidade cresce muito mais rapidamente ao longo dos anos.

Uma das explicações envolve justamente o intenso processo de seleção artificial promovido pelos humanos. Para criar cães cada vez maiores, criadores favoreceram indivíduos que cresciam de maneira extremamente rápida durante os primeiros meses de vida.

Esse crescimento intenso exige que o organismo produza um enorme número de células em pouco tempo e mantenha posteriormente uma massa corporal muito elevada. Esse esforço biológico pode aumentar o desgaste do organismo ao longo dos anos.

Outra hipótese envolve o câncer. Segundo pesquisadores da Universidade de Adelaide, animais naturalmente grandes, como elefantes e baleias, tiveram milhões de anos de evolução para desenvolver mecanismos capazes de reduzir o risco de tumores.

Já muitas raças gigantes de cães surgiram em apenas alguns séculos. Isso pode significar que seus corpos aumentaram de tamanho muito mais rapidamente do que sua biologia conseguiu desenvolver mecanismos eficientes de proteção contra o câncer, fenômeno conhecido como “atraso adaptativo”.

Estudos recentes encontraram indícios compatíveis com essa hipótese ao observar que raças mais antigas tendem a viver mais do que raças modernas de tamanho semelhante. No entanto, os próprios cientistas reconhecem que ainda são necessárias novas pesquisas para confirmar definitivamente essa relação.

Os especialistas também fazem um alerta importante: genética, alimentação equilibrada, controle do peso, atividade física e acompanhamento veterinário continuam sendo fatores fundamentais para a saúde e a longevidade de qualquer cão.

Mesmo assim, os resultados levantam uma reflexão importante. Ao selecionar cães cada vez maiores por motivos estéticos ou funcionais, os seres humanos podem ter levado essas raças além do ritmo em que sua biologia conseguiu se adaptar, reduzindo sua expectativa de vida e aumentando sua vulnerabilidade a diversas doenças.

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