Nos últimos anos, clínicas sofisticadas começaram a vender uma ideia sedutora: entrar em uma cápsula pressurizada, respirar oxigênio puro e sair com o cérebro mais ativo, a pele rejuvenescida e talvez até alguns anos extras de vida. A terapia hiperbárica virou obsessão entre atletas, influenciadores e milionários obcecados por performance. O problema é que muitos especialistas afirmam que a ciência ainda está muito distante de confirmar boa parte dessas promessas — e alguns acidentes recentes colocaram a prática novamente sob suspeita.
Como a terapia hiperbárica virou moda entre atletas e biohackers

A oxigenoterapia hiperbárica não nasceu como tratamento estético nem como ferramenta de longevidade. Ela existe há décadas e foi desenvolvida para tratar condições médicas sérias, como intoxicação por monóxido de carbono, lesões causadas por radiação e problemas enfrentados por mergulhadores com doença descompressiva.
O funcionamento da técnica é relativamente simples. Dentro de uma câmara pressurizada, o paciente respira oxigênio quase puro enquanto a pressão atmosférica aumenta artificialmente. Isso força uma quantidade maior de oxigênio a entrar na corrente sanguínea e alcançar tecidos lesionados.
Segundo especialistas, esse excesso de oxigênio pode estimular a formação de vasos sanguíneos, acelerar processos de cicatrização e ativar células-tronco envolvidas na regeneração dos tecidos.
Por causa desses efeitos, atletas de elite começaram a utilizar o método para acelerar a recuperação física após treinos intensos e lesões. Nomes como LeBron James, Novak Djokovic e Michael Phelps já relataram publicamente o uso da terapia.
A partir daí, o tratamento ultrapassou o ambiente hospitalar e entrou no universo do bem-estar de luxo. Influenciadores ligados ao movimento “biohacker”, como Bryan Johnson e Gary Brecka, passaram a divulgar a prática como ferramenta para melhorar desempenho mental, retardar o envelhecimento e aumentar a longevidade.
O interesse cresceu rapidamente. Hoje existem desde câmaras gigantes de aço usadas em hospitais até versões infláveis vendidas pela internet por milhares de dólares para uso doméstico.
Mas a popularização acelerada trouxe um problema importante: muitas promessas começaram a avançar muito mais rápido do que as evidências científicas.
O que a ciência realmente descobriu até agora

Grande parte da fama recente da terapia hiperbárica surgiu após estudos conduzidos pelo pesquisador Shai Efrati, do Centro Sagol de Medicina Hiperbárica, em Israel.
Em uma das pesquisas mais conhecidas, publicada em 2020, o grupo observou alterações em marcadores celulares associados ao envelhecimento. Os participantes apresentaram aumento nos telômeros — estruturas ligadas à proteção do DNA — e redução das chamadas “células zumbis”, relacionadas à inflamação e degeneração.
O problema é que esses resultados passaram a ser interpretados nas redes sociais como prova de rejuvenescimento ou aumento da expectativa de vida.
O próprio Efrati afirma que isso é um exagero.
Segundo ele, os estudos eram pequenos, preliminares e realizados sob condições extremamente controladas. Os participantes passaram por cinco sessões semanais de 90 minutos durante três meses dentro de câmaras médicas de aço respirando oxigênio a 100%.
Não existe garantia de que equipamentos comerciais mais simples produzam os mesmos efeitos. Inclusive, o pesquisador chegou a chamar algumas câmaras infláveis vendidas no mercado de “sacos cheios de ar”.
Outras pesquisas também sugeriram melhora em funções cognitivas, aumento do VO2 máximo e estímulo à produção de colágeno na pele. Ainda assim, especialistas afirmam que os dados permanecem insuficientes para transformar a terapia em solução antienvelhecimento comprovada.
A diretora médica do Centro de Medicina Hiperbárica da Universidade de Maryland, Kinjal Sethuraman, destacou que muitos estudos ainda são preliminares e alguns sequer foram feitos em seres humanos.
Ou seja: existe potencial científico, mas ainda não há consenso capaz de sustentar as promessas vendidas por clínicas de bem-estar.
Os riscos por trás das câmaras hiperbáricas que quase ninguém comenta
Enquanto a terapia se tornava tendência nas redes sociais, alguns episódios graves começaram a chamar atenção das autoridades.
Em 2025, dois incêndios envolvendo câmaras hiperbáricas causaram mortes nos Estados Unidos. Em um dos casos, um menino de apenas cinco anos morreu após funcionários de uma clínica ignorarem protocolos básicos de segurança. O episódio terminou com acusações criminais contra os envolvidos.
Especialistas explicam que o ambiente dentro dessas câmaras concentra níveis extremamente elevados de oxigênio, o que pode transformar qualquer pequena faísca em um incêndio violento.
Por isso, clínicas sérias exigem que pacientes removam perfumes, cremes, desodorantes e qualquer material capaz de gerar eletricidade estática antes das sessões.
Além disso, a terapia pode ser perigosa para pessoas com determinados problemas cardíacos, pulmonares ou doenças no ouvido interno.
Outro ponto importante envolve a regulamentação. Equipamentos médicos aprovados por órgãos como a FDA seguem regras rigorosas de segurança. Já muitas clínicas voltadas ao “bem-estar” conseguem operar sem o mesmo nível de fiscalização.
Os especialistas deixam um alerta claro: para lesões específicas e tratamentos médicos supervisionados, a terapia hiperbárica pode funcionar muito bem. Mas quando o objetivo é prometer rejuvenescimento, vida mais longa ou transformação estética rápida, a realidade provavelmente está muito distante da propaganda.
E considerando que alguns protocolos podem custar mais de 6 mil dólares, muitos médicos acreditam que boa parte dos consumidores talvez esteja apenas pagando caro por expectativas infladas.
[Fonte: La nación]