Poucas histórias marítimas atravessaram tantas gerações cercadas de teorias, lendas e especulações quanto a do Mary Celeste. O famoso “navio fantasma” apareceu à deriva no Atlântico em 1872 sem nenhum tripulante a bordo, mas completamente intacto. Durante décadas, surgiram hipóteses sobre piratas, monstros marinhos e até fenômenos sobrenaturais. Agora, uma nova investigação científica reconstruiu os últimos momentos da embarcação e revelou um cenário muito mais real — e assustador — do que qualquer ficção.
O navio apareceu intacto, mas sem nenhum sinal da tripulação

O Mary Celeste partiu de Nova York em 7 de novembro de 1872 rumo a Gênova, na Itália. A embarcação mercante era comandada pelo experiente capitão Benjamin Spooner Briggs, que viajava acompanhado da esposa, da filha de apenas dois anos e de sete tripulantes.
Quase um mês depois, em 4 de dezembro, outro navio chamado Dei Gratia encontrou o bergantim vagando sozinho em pleno Atlântico, a centenas de quilômetros das ilhas dos Açores.
Quando os marinheiros subiram a bordo, encontraram uma cena desconcertante. O navio estava praticamente em perfeitas condições de navegação. Havia comida suficiente para meses, objetos pessoais espalhados normalmente pelos aposentos e a maior parte da carga permanecia intacta.
Nenhum sinal de luta foi encontrado. Também não existiam marcas de pirataria, violência ou danos estruturais graves. O único elemento ausente era justamente o mais importante: todas as pessoas que estavam a bordo haviam desaparecido sem deixar rastros.
A carga transportada pelo Mary Celeste incluía mais de 1.700 barris de álcool industrial. Durante décadas, especialistas suspeitaram que essa substância poderia estar relacionada ao desaparecimento, mas faltavam provas concretas para confirmar a hipótese.
Agora, um novo estudo químico finalmente conseguiu reconstruir o que provavelmente aconteceu dentro da embarcação pouco antes da evacuação.
A explosão invisível que pode ter provocado pânico total
A pesquisa liderada pelo químico Jack Rowbotham reproduziu as condições exatas da bodega do navio utilizando modelos em escala, barris semelhantes aos originais e sistemas de ventilação equivalentes aos usados no século XIX.
Os cientistas descobriram que, durante a viagem, a mudança de temperatura entre o frio de Nova York e o clima mais ameno próximo aos Açores fez com que parte do etanol evaporasse rapidamente dentro da embarcação.
Segundo os cálculos da equipe, centenas de galões de álcool vazaram dos barris antigos e transformaram o ambiente interno em uma verdadeira armadilha inflamável. Bastava uma pequena faísca para provocar uma reação violenta.
E foi exatamente isso que a simulação demonstrou.
Os pesquisadores recriaram um fenômeno conhecido como deflagração, uma espécie de explosão rápida baseada em onda de pressão. Diferente de uma explosão convencional, ela produz uma enorme bola de fogo que atravessa o ambiente em alta velocidade sem necessariamente destruir toda a estrutura ao redor.
Isso explicaria um detalhe que sempre intrigou historiadores: o Mary Celeste não apresentava queimaduras, fuligem ou sinais claros de incêndio.
Segundo o químico Andrea Sella, da University College London, a onda de fogo teria sido extremamente intensa, mas curta o suficiente para não deixar marcas permanentes na madeira da embarcação.
A decisão desesperada que pode ter condenado todos a bordo
Para marinheiros do século XIX, ouvir uma explosão dentro de um navio carregado com milhares de litros de álcool era praticamente uma sentença de morte. O capitão Briggs provavelmente acreditou que uma segunda detonação destruiria completamente a embarcação em poucos minutos.
Os pesquisadores acreditam que, após o estrondo, as escotilhas da bodega foram lançadas para cima pela pressão interna, aumentando ainda mais o pânico da tripulação.
Diante do risco iminente, Briggs tomou a decisão de evacuar imediatamente o Mary Celeste utilizando o único bote salva-vidas disponível. A hipótese mais aceita é que os ocupantes permaneceram presos ao navio principal por uma corda enquanto aguardavam que o perigo diminuísse.
O diário de bordo trazia sua última anotação em 25 de novembro de 1872, indicando que o navio navegava próximo da ilha de Santa Maria.
Em algum momento depois da evacuação, porém, algo deu errado. Os cientistas acreditam que uma mudança brusca no clima, uma tempestade ou o rompimento da corda de reboque separou definitivamente o bote do Mary Celeste.
Enquanto o navio continuou flutuando sozinho pelo Atlântico, o pequeno bote desapareceu no oceano com todos os ocupantes.
Mais de 150 anos depois, o mistério que inspirou livros, filmes e teorias sobrenaturais talvez tenha encontrado uma explicação surpreendentemente simples: medo, fogo invisível e uma decisão tomada em segundos no meio do mar.
[Fonte: Perfil]