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Ciência

Surto raro de Ebola já ultrapassa 500 casos suspeitos na África e acende alerta internacional após médico americano testar positivo

Um surto incomum de Ebola na África Central está crescendo rapidamente e preocupa autoridades de saúde internacionais. A doença já soma centenas de casos suspeitos e mais de cem mortes potenciais, enquanto especialistas alertam para um fator especialmente delicado: o vírus responsável pertence a uma variante rara para a qual não existem vacinas nem tratamentos oficialmente aprovados.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O mundo voltou a olhar com preocupação para o Ebola. Um novo surto registrado na República Democrática do Congo cresce em ritmo acelerado e já mobiliza autoridades internacionais de saúde após a confirmação de um médico americano infectado enquanto trabalhava na região.

Segundo informações divulgadas pelo Centers for Disease Control and Prevention, o profissional atuava em um grupo missionário médico na cidade de Bunia, no leste do país africano, quando começou a apresentar sintomas da doença. Após testar positivo, ele foi transferido de avião para a Alemanha, onde recebe tratamento especializado.

Enquanto isso, o número de casos suspeitos já ultrapassa 500, com mais de 100 mortes possivelmente associadas ao surto, segundo a Organização Mundial da Saúde.

Um vírus raro e sem vacina aprovada

O que torna o cenário ainda mais delicado é o tipo específico de Ebola envolvido.

O surto atual é causado pelo vírus Bundibugyo, uma variante rara da família Ebola que apareceu poucas vezes na história recente. Diferentemente da cepa Zaire — responsável pelos maiores surtos já registrados — não existem vacinas ou tratamentos oficialmente aprovados para essa versão do vírus.

Isso limita drasticamente as ferramentas disponíveis para conter a disseminação.

Embora cuidados médicos precoces possam aumentar as chances de sobrevivência, autoridades sanitárias admitem que ainda existe grande incerteza sobre o tamanho real do surto e sobre o quanto o vírus já se espalhou.

“Nós temos incertezas significativas sobre o número de infecções e sobre até onde o vírus chegou”, afirmou Anne Ancia, representante da OMS, durante uma coletiva de imprensa.

O surto surgiu de forma repentina

Os primeiros relatos de doenças misteriosas começaram a aparecer no início de maio na região de Ituri, no nordeste da República Democrática do Congo.

Em 15 de maio, autoridades locais confirmaram oficialmente o surto de Ebola. Mas, naquele momento, a situação já era grave: cerca de 250 casos suspeitos haviam sido registrados.

No dia seguinte, a OMS declarou emergência de saúde pública de interesse internacional — uma decisão incomum, tomada sem consulta prévia ao comitê externo de especialistas normalmente responsável por esse tipo de recomendação.

A maioria dos casos continua concentrada na República Democrática do Congo, mas já houve registros importados em Uganda, país vizinho.

Os primeiros pacientes conhecidos surgiram na cidade de Bunia, embora os cientistas ainda não saibam exatamente onde o surto começou.

O médico americano trabalhava em missão humanitária

O grupo missionário Serge confirmou que o americano infectado é o médico Peter Stafford, que atuava atendendo pacientes na região afetada.

Segundo a organização, ele começou a apresentar sintomas durante o fim de semana e recebeu o diagnóstico positivo no domingo.

Outros dois médicos do grupo — incluindo sua esposa, Rebekah Stafford — também podem ter sido expostos ao vírus, embora permaneçam sem sintomas até o momento.

Autoridades americanas afirmaram que outras seis pessoas devem ser evacuadas da região para monitoramento ou tratamento preventivo.

O Ebola continua sendo uma das doenças mais letais do mundo

Embora especialistas considerem improvável que o Ebola provoque uma pandemia global semelhante à covid-19 — principalmente porque o vírus não se transmite com tanta facilidade pelo ar — a doença continua extremamente perigosa.

O Ebola provoca febre alta, hemorragias internas, falência múltipla de órgãos e apresenta taxas de mortalidade muito elevadas.

O maior surto da história ocorreu entre 2014 e 2016 na África Ocidental, infectando cerca de 30 mil pessoas e causando mais de 11 mil mortes.

Agora, o temor das autoridades sanitárias é que a atual velocidade de propagação, somada à ausência de vacinas específicas para a cepa Bundibugyo, torne o controle muito mais difícil.

Corrida contra o tempo para conter a disseminação

A OMS avalia a possibilidade de utilizar a vacina Ervebo — atualmente aprovada para a variante Zaire do Ebola — mesmo sem garantia de eficácia ideal contra o vírus Bundibugyo.

O problema é que a produção e distribuição em quantidade suficiente pode levar pelo menos dois meses.

Enquanto isso, o CDC ampliou o monitoramento de passageiros vindos da República Democrática do Congo, Uganda e Sudão do Sul.

Os Estados Unidos também passaram a restringir temporariamente a entrada de estrangeiros que estiveram nessas regiões nos últimos 21 dias.

Para epidemiologistas, o cenário atual reforça uma preocupação crescente: surtos infecciosos emergentes continuam aparecendo em regiões vulneráveis do planeta em um momento de forte pressão sobre os sistemas globais de saúde pública.

E, embora o Ebola ainda não esteja entre os vírus mais propensos a causar uma pandemia mundial, cada novo surto serve como lembrete de quão rapidamente doenças perigosas podem atravessar fronteiras em um mundo altamente conectado.

 

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