Na madrugada de 3 de janeiro, explosões em Caracas e cidades vizinhas marcaram o início de uma das operações mais dramáticas da história recente da Venezuela. Horas depois, Donald Trump confirmou a captura de Nicolás Maduro. Trinta dias mais tarde, os efeitos da intervenção americana já são visíveis: mudanças profundas no petróleo, na diplomacia e na situação de presos políticos colocaram o país em rota de transformação acelerada.
Bombardeios, prisão e transferência para Nova York

Os ataques atingiram instalações estratégicas como o quartel Fuerte Tiuna e a Base Aérea La Carlota. Poucas horas depois, Trump anunciou a captura de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. O casal foi retirado de Caracas, levado para Nova York e apresentado à Justiça dois dias depois, sob acusações de narcoterrorismo, tráfico de drogas e armas e conspiração. Ambos se declararam inocentes.
No mesmo dia da audiência, a então vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu como presidente interina, dando início a um período de governo marcado por negociações intensas com Washington e por uma reorientação econômica rápida.
Petróleo volta ao centro da estratégia

Uma das primeiras mudanças práticas foi a retomada do envio de petróleo venezuelano aos Estados Unidos. Em paralelo, o governo interino anunciou uma reforma da Lei de Hidrocarbonetos, abrindo o setor a empresas estrangeiras.
Até então, companhias interessadas em extrair petróleo precisavam operar em joint ventures com a estatal PDVSA, que mantinha o controle da produção e da comercialização. Com a nova regra, empresas passam a poder atuar por conta própria, assumindo riscos e investimentos — uma mudança estrutural para um país que, por décadas, manteve forte controle estatal sobre seus recursos energéticos.
Trump chegou a afirmar publicamente que definiria quais empresas petrolíferas poderiam investir na Venezuela, enquanto a Casa Branca anunciou que a receita inicial das vendas seria administrada sob supervisão americana.
Reaproximação diplomática com Washington
Outro movimento simbólico foi o anúncio da reabertura da embaixada dos EUA em Caracas, fechada desde 2019, quando as relações diplomáticas foram rompidas. Washington também nomeou uma nova representante para o país, Laura Dogu.
Em meados de janeiro, Delcy Rodríguez se reuniu na capital venezuelana com o diretor da CIA, John Ratcliffe. Nesta semana, ela voltou a se encontrar com Dogu, sinalizando a tentativa de institucionalizar o diálogo após anos de distanciamento.
Apesar disso, a presidente interina tem alternado gestos de cooperação com declarações públicas de que “nenhum agente externo” governa o país, em resposta às falas de Trump sobre seu suposto controle da Venezuela.
Libertação de presos políticos acelera
Desde 8 de janeiro, centenas de detidos por motivos políticos foram soltos. A ONG Foro Penal contabiliza 344 libertações até agora, enquanto o governo fala em mais de 600, sem divulgar listas completas.
Além disso, Delcy Rodríguez enviou ao Legislativo um pedido de aprovação de uma lei de anistia geral. Segundo o Foro Penal, ainda permanecem presos 687 opositores, entre eles dezenas de estrangeiros. Entre as medidas anunciadas está também o fechamento do El Helicoide, prisão que se tornou símbolo de denúncias de tortura.
Um país em transição sob pressão externa
Em apenas um mês, a Venezuela passou de um regime isolado a um governo interino que reabre canais com Washington, flexibiliza regras para investidores estrangeiros e promove libertações em massa. A velocidade das mudanças reflete o peso da intervenção americana e a centralidade do petróleo nas negociações.
Ainda é cedo para medir os efeitos de longo prazo. A economia segue fragilizada, o cenário político permanece instável e parte significativa da oposição cobra garantias de uma transição democrática real. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos avançam sobre um setor energético estratégico, enquanto Caracas tenta equilibrar soberania e sobrevivência econômica.
O primeiro mês pós-Maduro deixou claro que a Venezuela entrou em uma nova fase — marcada por decisões rápidas, influência externa direta e um futuro ainda em aberto, acompanhado de perto pela comunidade internacional.
[ Fonte: CNN Brasil ]