Pular para o conteúdo

Centro-direita assume o poder na Bolívia após 20 anos de hegemonia socialista

A Bolívia encerrou neste sábado (8) um ciclo político de duas décadas de governos de esquerda. O novo presidente Rodrigo Paz, do Partido Democrata Cristão (PDC), tomou posse em meio à pior crise econômica do país em 40 anos. Filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora (1989–1993), ele assume com a promessa de “abrir a economia” e recuperar a confiança internacional — mas sem abandonar as políticas sociais que marcaram o período anterior.

Crise histórica e promessa de “capitalismo para todos”

A missão de Paz começa com um cenário desafiador: inflação de 19% até outubro e reservas cambiais quase esgotadas. Segundo ele, o governo de Luis Arce, sucessor de Evo Morales, manteve artificialmente baixos os preços da gasolina e do diesel, drenando os cofres públicos.

Durante a campanha, Paz defendeu um modelo que batizou de “capitalismo para todos” — uma tentativa de equilibrar mercado e inclusão social. Ele prometeu cortar pela metade os subsídios, reduzir a burocracia e simplificar impostos, além de estimular a formalização da economia. “Não queremos austeridade severa, mas uma economia forte, justa e voltada para gerar oportunidades”, disse.

Rompendo com o legado de Evo e Arce

No discurso de posse, Paz foi mais incisivo:

“Nunca mais uma Bolívia isolada, submetida a ideologias fracassadas, muito menos uma Bolívia de costas para o mundo.”

O novo presidente criticou duramente o modelo econômico socialista e defendeu uma guinada liberal, com abertura comercial, atração de investimentos estrangeiros e modernização dos sistemas energético e digital.

A mensagem foi clara: a Bolívia quer voltar a ser competitiva. “O país precisa voltar a produzir. Vamos abrir a economia, reduzir tarifas de importação e apostar em ciência, tecnologia e desenvolvimento verde”, afirmou.

Do auge do gás ao colapso das reservas

A economia boliviana viveu um boom sem precedentes entre 2006 e 2014, impulsionada pelas exportações de gás natural. Mas o colapso dos preços e a falta de investimentos no setor deixaram o país dependente de importações e endividado.

Paz questionou o desperdício dessa bonança:

“O que fizeram com a gente com tanta riqueza? Como é possível que hoje existam famílias sem o que comer, se éramos um país rico em gás e com o lítio como promessa de futuro?”

A frase, reproduzida em toda a imprensa boliviana, simboliza a tentativa do novo governo de se apresentar como uma ruptura com os supostos erros do passado — sem perder o apelo popular.

Posse sob forte esquema de segurança

A cerimônia no Palácio Legislativo, em La Paz, reuniu 50 delegações internacionais, incluindo o vice-chanceler dos EUA Christopher Landau e os presidentes Gabriel Boric (Chile), Javier Milei (Argentina) e Yamandú Orsi (Uruguai).

A área do palácio foi cercada por forte esquema policial, mas a posse transcorreu sem incidentes. Em tom solene, Paz fez o juramento presidencial com as palavras:

“Deus, família e pátria: sim, juro!”

A frase, aplaudida de pé pelos parlamentares, marcou o início de um novo ciclo político no país andino — mais liberal na economia, mais conservador nos valores.

Um país dividido e uma economia à beira do colapso

Com 58 anos, Rodrigo Paz inicia o mandato sob enorme pressão. A população exige medidas rápidas contra o desemprego e a inflação, enquanto sindicatos e movimentos sociais prometem resistência a qualquer corte de subsídios.

Entre o pragmatismo econômico e o medo do retrocesso social, a Bolívia entra em uma nova fase — uma transição delicada em busca de equilíbrio entre crescimento, estabilidade e justiça social.

[Fonte: Correio Braziliense]

Você também pode gostar

Modo

Follow us