Um golpe em plena campanha eleitoral

O governo de Javier Milei enfrenta uma nova turbulência política. O deputado José Luis Espert, um dos rostos mais conhecidos da coligação La Libertad Avanza, anunciou neste domingo (5) que deixará sua candidatura às eleições legislativas do fim do mês, depois de admitir ter recebido dinheiro de um empresário investigado por narcotráfico internacional.
O caso surge em um momento delicado para o governo argentino, que nos últimos dias sofreu reveses políticos no Congresso, enfrentou acusações de corrupção e viu o cenário econômico agravar-se com forte volatilidade financeira.
Em sua conta na rede X (antigo Twitter), Espert declarou que sua decisão foi tomada para não prejudicar o projeto de Milei:
“Não posso permitir que o projeto de país que construímos com tanto esforço se desmorone. Tudo isso é uma grande mentira para manchar o processo eleitoral”, escreveu o deputado, que seguirá ocupando sua cadeira no Parlamento.
Milei sai em defesa e fala em “operação sinistra”
O presidente Javier Milei reagiu rapidamente em defesa do aliado. Em entrevista ao canal argentino LN+, o mandatário ultraliberal acusou a oposição de organizar o escândalo como parte de uma estratégia de difamação:
“Fizeram uma operação sinistra. É um conjunto de calúnias, injúrias e aberrações”, afirmou.
Milei ainda descreveu Espert como “um gladiador” e justificou sua renúncia como um ato de sacrifício político:
“O ‘profe’ Espert é um lutador. Ele se retira porque entende que a causa da liberdade é mais importante do que qualquer um de nós.”
A coalizão La Libertad Avanza, que governa com minoria nas duas câmaras do Congresso, esperava ampliar sua base legislativa nas eleições de 26 de outubro, mas o episódio pode comprometer parte do apoio popular obtido nos primeiros meses de governo.
O dinheiro e o empresário preso

O escândalo estourou após a divulgação de que Espert teria recebido, em 2020, US$ 200 mil de Federico “Fred” Machado, um empresário argentino com prisão domiciliar e ordem de extradição dos Estados Unidos por supostos vínculos com o narcotráfico e lavagem de dinheiro.
O próprio Espert confirmou o pagamento, afirmando que se tratava de honorários por uma consultoria para uma empresa de mineração na Guatemala, de propriedade de Machado. Segundo ele, o trabalho foi legítimo e não tinha relação com atividades ilícitas.
O deputado também reconheceu ter feito cerca de 35 viagens em aviões particulares do empresário durante sua campanha presidencial de 2019, mas garantiu não saber das acusações que pesavam contra Machado.
“Eu desconhecia totalmente qualquer vínculo com o narcotráfico”, declarou Espert, em entrevista à rádio Mitre.
Um governo sob pressão crescente
O episódio se soma a uma série de dificuldades políticas para Milei. Na última semana, o Congresso argentino derrubou dois vetos presidenciais, revelando o isolamento do governo dentro do Legislativo. Além disso, o partido sofreu um revés eleitoral em uma província-chave no início de outubro, sinalizando desgaste antes das eleições nacionais.
Analistas locais apontam que, mesmo com a tentativa de Milei de transformar o escândalo em ataque político, o caso Espert pode minar a narrativa de integridade e ruptura com o “sistema” que impulsionou o libertário ao poder.
[ Fonte: DW ]