A nova corrida por recursos naturais não acontece em terra firme, mas sob quilômetros de água salgada. Os fundos oceânicos escondem metais essenciais para a transição energética global, como cobalto, níquel e cobre. Diante dessa nova fronteira, diversos países já fazem movimentações agressivas. Mas a China opta por outro caminho: o da estratégia silenciosa e bem calculada, que pode garantir sua supremacia futura sem disparar um único alarme.
Preparação sem pressa, mas constante

Enquanto empresas como a canadense The Metals Company pressionam para iniciar imediatamente a mineração comercial, Pequim prefere investir em alicerces sólidos. Para o analista Alex Gilbert, o objetivo chinês não é ser o primeiro a extrair, mas sim o país que domina o processo quando ele se tornar inevitável.
Por isso, a China tem firmado acordos estratégicos com pequenos países insulares do Pacífico, como Kiribati e as Ilhas Cook, ao mesmo tempo em que expande sua influência dentro da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA), órgão vinculado à ONU. Hoje, o país detém cinco dos 22 contratos de exploração concedidos pela entidade — mais do que qualquer outro participante.
Esses contratos não apenas cobrem a maior área total, mas também contemplam diferentes tipos de depósitos: nódulos polimetálicos, crostas cobaltíferas e sulfetos hidrotermais, o que amplia a capacidade de adaptação e domínio técnico chinês no setor.
Tecnologia em desenvolvimento e sinal político ao mundo
Mesmo com um atraso estimado entre dois e cinco anos em relação a empresas como a TMC no aspecto tecnológico, a China compensa com uma estrutura de refinamento e industrialização de metais raros que já é, atualmente, a mais poderosa do mundo.
Exemplos como o “Pioneer II”, um equipamento submarino desenvolvido internamente que já operou com sucesso a mais de 4.000 metros de profundidade, mostram que o país está investindo não apenas em exploração, mas em controle integral da cadeia produtiva: do fundo do mar até as fábricas.
Mas o jogo chinês não se limita ao campo técnico. Ele também é geopolítico. Ao criticar publicamente a ausência dos Estados Unidos na convenção da ISA e se posicionar como defensor do direito internacional, Pequim reforça sua imagem de potência responsável — algo que pode render apoio internacional quando os debates sobre a regulamentação da mineração submarina se intensificarem.
O momento de agir ainda não chegou — mas está se aproximando
Neste momento, a China não tem pressa para iniciar a exploração comercial. A ausência de consenso global, as preocupações ambientais e a instabilidade regulatória tornam o cenário incerto. Mas se o jogo mudar — e é apenas uma questão de tempo até que mude —, o país estará pronto para agir com força total.
O recado é claro: Pequim não quer correr. Ela quer ganhar. E está montando seu tabuleiro com precisão milimétrica para isso.