É um detalhe que aparece tão rapidamente que muita gente pode nem perceber sua importância. Antes de Christopher Nolan mergulhar o público em sua versão de A Odisseia, uma frase surge na tela para estabelecer as regras daquele universo: “Uma época de aparente magia”.
A escolha da palavra “aparente” chama especialmente a atenção. Afinal, a história de Homero está repleta de deuses, criaturas extraordinárias e acontecimentos aparentemente sobrenaturais.
Agora, Nolan explicou de onde surgiu a ideia para essa introdução. E a inspiração veio de um dos filmes mais influentes da história: Star Wars.
Em uma conversa com o cineasta sul-coreano Park Chan-wook, Nolan revelou que queria provocar no público uma sensação semelhante àquela que experimentou quando viu pela primeira vez o clássico de George Lucas.
Star Wars ensinou Nolan a preparar o público para outro mundo
Segundo Nolan, assistir ao primeiro Star Wars foi uma de suas experiências cinematográficas mais marcantes durante a juventude.
O diretor destacou especificamente a famosa introdução do filme: “Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante…”.
Para Nolan, essa frase extremamente simples fazia algo essencial antes mesmo de a história começar. Ela explicava ao espectador como deveria encarar aquilo que estava prestes a assistir.
“Isso imediatamente me disse como assistir ao filme”, explicou o cineasta. Segundo ele, a frase o colocou no estado de espírito necessário para aceitar aquele universo e suas imagens.
Foi justamente essa experiência que Nolan tentou reproduzir em A Odisseia.
O objetivo era criar um mundo no qual o público pudesse mergulhar completamente, aceitando suas próprias regras durante a experiência cinematográfica.
Por isso, ele procurou uma frase curta que ajudasse a estabelecer imediatamente os termos daquela história.
Por que Nolan escolheu falar em “aparente magia”?
A palavra mais importante da frase talvez seja justamente “aparente”.
Nolan explicou que queria reconhecer uma questão fundamental de sua abordagem: ao contar aquela história de maneira relativamente realista, precisava lidar com a existência da magia.
A solução foi imaginar como uma pessoa da Idade do Bronze compreenderia o mundo ao seu redor.
Sem o conhecimento científico disponível atualmente, inúmeros fenômenos naturais seriam inexplicáveis. Para essas pessoas, o mundo poderia parecer genuinamente cheio de forças sobrenaturais.
Fenômenos desconhecidos receberiam explicações fantásticas. Algumas poderiam ocasionalmente se aproximar da realidade, enquanto outras estariam completamente erradas.
Nolan queria colocar essa dúvida na cabeça do espectador desde os primeiros segundos.
Os deuses e monstros de A Odisseia são realmente sobrenaturais?
A escolha também muda a maneira como podemos interpretar toda a história.
Se aquela é uma época de “aparente magia”, surge uma pergunta inevitável: os acontecimentos sobrenaturais vistos pelos personagens são realmente mágicos?
Os deuses existem literalmente dentro daquele universo? As criaturas encontradas durante a jornada possuem alguma explicação racional? Ou estamos simplesmente acompanhando acontecimentos pelos olhos de pessoas que interpretam o desconhecido por meio da mitologia?
Nolan parece propositalmente interessado em deixar essas perguntas abertas.
Isso permite que diferentes espectadores interpretem os mesmos acontecimentos de maneiras distintas, algo que combina perfeitamente com a forma como o cineasta costuma construir seus filmes.
Nolan percebeu que talvez não sejamos tão diferentes
Existe ainda outra camada nessa escolha.
Durante a produção de A Odisseia, Nolan começou pensando principalmente nas diferenças entre a forma como uma pessoa da Idade do Bronze compreendia o mundo e nossa visão atual.
Mas sua percepção mudou.
O diretor afirmou que, depois de conversar sobre o filme, começou a questionar se realmente avançamos tanto quanto imaginamos na maneira de interpretar aquilo que não conseguimos compreender completamente.
Hoje possuímos ciência, tecnologia e séculos de conhecimento acumulado. Ainda assim, continuamos cercados por perguntas sem respostas definitivas sobre o Universo, a consciência e nossa própria existência.
Assim, aquela pequena frase no começo de A Odisseia acaba desempenhando uma função muito maior.
Da mesma forma que “Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante…” preparou gerações para entrar no universo de Star Wars, Nolan queria algumas palavras capazes de transportar o público para outro tempo.
Um período em que a fronteira entre realidade, explicação e magia podia ser muito mais difícil de enxergar.