Pular para o conteúdo
Ciência

Novo estudo latino-americano pode mudar a forma como a demência é diagnosticada

Pesquisa com mais de 600 participantes em seis países mostra que unir exame de sangue, testes cognitivos e neuroimagem pode aumentar significativamente a precisão no diagnóstico precoce de demências.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

A demência costuma se instalar de maneira silenciosa. No início, pequenas falhas de memória ou alterações sutis de comportamento podem passar despercebidas. Quando o diagnóstico finalmente chega, muitas vezes a doença já avançou. Agora, um estudo conduzido por pesquisadores de seis países da América Latina sugere que a combinação estratégica de diferentes ferramentas pode transformar a forma como essas condições são identificadas — especialmente em uma região historicamente sub-representada na ciência.

A combinação que elevou a precisão do diagnóstico

Novo estudo latino-americano pode mudar a forma como a demência é diagnosticada
© Pexels

O trabalho foi liderado pelo consórcio ReDLat e publicado na revista Nature Aging. A pesquisa envolveu 605 participantes recrutados no Chile, Argentina, Brasil, Colômbia, Peru e México, incluindo pacientes com doença de Alzheimer, demência frontotemporal e indivíduos cognitivamente saudáveis.

A grande novidade não está em um exame isolado, mas na combinação de três frentes: testes neuropsicológicos, exames de neuroimagem — como a ressonância magnética — e análise de biomarcadores no sangue.

Esses biomarcadores seguem o modelo conhecido como AT(N), que avalia a presença de proteínas amiloide (A), tau (T) e sinais de neurodegeneração (N). Essas substâncias estão associadas ao Alzheimer e a outras demências e já vêm sendo estudadas nos Estados Unidos e na Europa. No entanto, sua aplicação em populações latino-americanas ainda era pouco explorada.

Segundo Agustín Ibañez, diretor científico do Latin American Brain Health Institute (BrainLat) e um dos líderes do estudo, o uso conjunto dessas ferramentas elevou a taxa de acerto para 89% no caso do Alzheimer e 95% para demência frontotemporal. Quando utilizados isoladamente, os biomarcadores apresentavam índices inferiores, de 83% e 88%, respectivamente.

A diferença pode parecer modesta, mas em doenças complexas e de evolução lenta, qualquer ganho de precisão é decisivo — principalmente em fases iniciais, quando intervenções podem ser mais eficazes.

Por que a América Latina precisava desse estudo

A demência já é uma das principais causas de incapacidade na América Latina. A prevalência entre pessoas com mais de 60 anos é de 8,5% — uma das mais altas do mundo — e projeções indicam que pode chegar a 19,3% até 2050, o que representaria cerca de 12 milhões de casos na região.

Apesar disso, a maioria dos estudos sobre biomarcadores foi conduzida em países nórdicos e outras regiões com perfil genético, socioeconômico e ambiental muito diferente do latino-americano.

Ibañez ressalta que 90% das pesquisas utilizadas para definir níveis de risco vêm de populações com outras características genéticas e estilos de vida distintos. Fatores como desigualdade social, educação, dieta e exposições ambientais acumuladas ao longo da vida — o chamado “exposoma” — influenciam o envelhecimento cerebral e podem alterar a expressão da doença.

O próprio consórcio já havia demonstrado que maior vulnerabilidade socioeconômica está associada a envelhecimento cerebral acelerado na região. Isso reforça a necessidade de validar ferramentas diagnósticas considerando essa diversidade.

Os resultados do novo estudo mostraram, inclusive, variações entre os países analisados. A precisão dos marcadores não foi uniforme entre México, Chile, Argentina, Peru, Colômbia e Brasil, evidenciando que a heterogeneidade regional impacta o desempenho dos testes.

O papel dos exames de sangue e os debates em curso

Os biomarcadores sanguíneos ganharam destaque nos últimos anos por serem menos invasivos e mais acessíveis do que análises do líquido cefalorraquidiano ou exames sofisticados como o PET com marcadores específicos para amiloide ou tau.

As proteínas beta-amiloide e tau tendem a se acumular no cérebro décadas antes do aparecimento dos sintomas clínicos. No entanto, sua presença isolada não garante que a pessoa desenvolverá demência. Há indivíduos com níveis elevados desses marcadores que nunca apresentam comprometimento cognitivo significativo.

Esse ponto alimenta um debate internacional. As diretrizes recentes da Alzheimer’s Association consideram que a presença dos biomarcadores já caracteriza a doença em nível biológico. Já o International Working Group defende que o diagnóstico deve combinar biomarcadores e sinais clínicos de deterioração cognitiva.

Para muitos especialistas, incluindo os autores do estudo latino-americano, a segunda abordagem parece mais realista. A combinação entre teste cognitivo e biomarcadores permite reduzir erros e evita rotular pessoas apenas com base em alterações laboratoriais.

Além do diagnóstico clínico, a estratégia pode ter impacto populacional. A ideia de aplicar testes cognitivos rápidos — até mesmo via celular — combinados a exames de sangue de baixo custo poderia permitir triagem ampla e identificação precoce de indivíduos em risco.

Ainda não há terapias amplamente acessíveis capazes de modificar drasticamente o curso da doença na América Latina. Mas evidências sugerem que mudanças no estilo de vida — alimentação equilibrada, atividade física, controle cardiovascular e tratamento da depressão — podem reduzir o risco em pessoas com maior vulnerabilidade.

O estudo reconhece limitações, como a falta de acompanhamento longitudinal para definir com precisão quais níveis de biomarcadores são realmente patológicos ao longo do tempo. Ainda assim, os resultados apontam para o que hoje parece ser a estratégia mais promissora: olhar para o cérebro de forma multimodal.

No futuro, essa combinação pode não apenas melhorar diagnósticos, mas também orientar intervenções mais precisas — antes que o declínio cognitivo se torne irreversível.

[Fonte: El destape]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados