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Ciência

Cientistas captam pela primeira vez a “música” de uma estrela próxima à Terra — e o som revela mais do que se imaginava

Um avanço inédito da astrofísica permitiu transformar as vibrações de uma estrela em som audível para humanos. O resultado? Uma descoberta surpreendente sobre a idade, estrutura e comportamento de corpos celestes que orbitam nosso espaço próximo — e que pode mudar como medimos o tempo no universo.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Estrelas emitem sons, mas, por causa do vácuo espacial e das distâncias envolvidas, esses sinais nunca chegam aos nossos ouvidos. Agora, um feito histórico mudou isso. Astrônomos do Havaí conseguiram “ouvir” a vibração de uma estrela localizada a apenas 21 anos-luz da Terra — revelando informações preciosas sobre sua idade e estrutura interna. Veja como a ciência traduziu luz e movimento em música estelar.

Astros que vibram como instrumentos musicais

Todo objeto físico, incluindo as estrelas, produz vibrações. Mas o espaço, sendo silencioso por natureza, impede que essas frequências cheguem até nós. A nova pesquisa, liderada por cientistas do Observatório W. M. Keck em Maunakea, no Havaí, mudou esse cenário ao detectar as oscilações sonoras de uma estrela fria e próxima da Terra — algo até então inédito.

A estrela em questão, HD 219134, fica a cerca de 21 anos-luz do nosso planeta e possui uma coloração alaranjada. A equipe utilizou o instrumento de última geração Keck Planet Finder (KPF) para registrar essas vibrações com extrema precisão.

A ciência da “música” estelar

Sonido Estrella
© Unsplash

Esse campo de estudo é conhecido como astrossismologia. Assim como os sismólogos analisam as ondas sísmicas para entender o interior da Terra, os astrofísicos agora conseguem estudar o interior de estrelas usando suas vibrações. O som que elas produzem é resultado de oscilações em suas superfícies — e contém pistas valiosas sobre sua idade, massa e composição.

Yaguang Li, principal autor da pesquisa e professor da Universidade do Havaí, destacou que essas vibrações são únicas, como uma assinatura musical individual. “Ao ouvir essas oscilações, conseguimos determinar com exatidão o tamanho, a massa e a idade de uma estrela”, explicou.

Um feito tecnológico sem precedentes

Embora telescópios como o Kepler e o TESS, da NASA, já tivessem detectado sons de estrelas muito distantes e quentes, captar o som de estrelas próximas e frias era considerado quase impossível. Até agora.

A equipe do Keck conseguiu registrar, durante quatro dias consecutivos, mais de 2.000 medições ultra precisas da velocidade da superfície de HD 219134. Essas medições permitiram identificar o vai e vem do movimento estelar, captando os “batimentos” da estrela.

As oscilações registradas ocorriam a cada quatro minutos, mas, para torná-las audíveis aos humanos, os cientistas aceleraram essas vibrações em cerca de 250 mil vezes — trazendo o som para uma frequência perceptível ao nosso ouvido.

Descobertas que ajudam a medir o tempo cósmico

Os dados revelaram que HD 219134 tem aproximadamente 10,2 bilhões de anos — mais antiga que o próprio Sol — sendo a estrela da sequência principal mais velha já analisada pela astrossismologia. Isso oferece aos cientistas uma nova ferramenta para medir a idade das regiões ao redor do nosso sistema solar.

Além disso, a pesquisa também contribui com a girocronologia, que estuda a rotação das estrelas. Estrelas mais jovens giram mais rapidamente e desaceleram com o tempo. A medição precisa dessas velocidades ajuda os astrônomos a estimar a idade de outras estrelas com base em sua rotação.

“É como encontrar um diapasão perdido há eras para os relógios estelares”, disse o Dr. Li. “Agora temos um ponto de referência confiável para entender como as estrelas desaceleram ao longo de bilhões de anos.”


Ao transformar as vibrações de uma estrela próxima em som audível, cientistas do Havaí abriram uma nova fronteira na astrofísica. A música estelar de HD 219134 não só revela sua idade como também permite recalibrar os “relógios cósmicos” e compreender melhor a evolução das estrelas ao nosso redor.

 

Fonte: La Nación

 

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