O esmalte dos dentes é a substância mais dura do corpo humano — mas, uma vez danificado, não se regenera. Hoje, restaurações dentárias dependem de resinas e coroas artificiais que não reproduzem sua estrutura natural. Agora, cientistas encontraram uma solução inesperada: usar proteínas extraídas de cabelo humano para recriar camadas semelhantes ao esmalte.
O desafio do esmalte dental

O esmalte cobre a superfície externa dos dentes, protegendo dentina e polpa. Rico em minerais, é resistente à corrosão, mas não invencível. Ácidos, traumas e má higiene o desgastam, causando sensibilidade e aumentando o risco de cáries, infecções e fraturas.
As soluções atuais — resinas, recobrimentos e coroas — apenas cobrem o dente, sem restaurar a biologia original. Além disso, podem precisar de substituições periódicas e nem sempre são totalmente compatíveis com o organismo. Por isso, a odontologia busca há anos alternativas mais naturais e duradouras.
Uma ideia inusitada: cabelo como matéria-prima
A pesquisa foi conduzida por Sara Gamea, Sherif Elsharkawy e colegas do King’s College London, em parceria com instituições do Reino Unido, Egito, Itália, Suécia e Canadá.
O time coletou cabelo humano e extraiu dele proteínas de queratina, fundamentais para sua estrutura. Em seguida, criaram andamios tridimensionais de queratina que imitavam a organização das fibras capilares. Esses andamios foram expostos a soluções de cálcio e fosfato — minerais que compõem naturalmente o esmalte dental.
Com um processo de mineralização controlada, os cientistas estimularam a formação de cristais sobre os andamios. Após dias de incubação, analisaram as superfícies por microscopia eletrônica e testes químicos.
O resultado? A formação de apatita, o mesmo mineral presente no esmalte humano. As camadas obtidas apresentaram semelhanças significativas de composição e microestrutura em relação ao esmalte real.
Resultados e limitações
Os achados sugerem que a queratina de cabelo pode servir como base para novas terapias de reparação dentária. Contudo, os experimentos ainda se restringem a condições de laboratório.
Até agora, não foram feitos testes em animais ou humanos, e não se sabe como o material se comportaria na cavidade oral, sujeita a variações de temperatura, bactérias e forças de mastigação. Também faltam dados sobre sua durabilidade e integração plena com dentes vivos.
Perspectivas para o futuro
O próximo passo será ampliar os estudos para modelos vivos e avaliar a viabilidade de aplicar a técnica em restaurações reais. Se bem-sucedida, a estratégia poderia oferecer tratamentos mais sustentáveis, reduzindo a dependência de materiais plásticos e substâncias como o flúor.
Mais do que uma curiosidade científica, a proposta aponta para um futuro em que biomateriais derivados de recursos renováveis do próprio corpo humano sejam usados para regenerar tecidos que antes pareciam impossíveis de reparar.
[ Fonte: Infobae ]