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Ciência

Cientistas descobrem células cerebrais que preveem o que vem a seguir — mesmo em situações inéditas

Um novo estudo revelou que o cérebro possui neurônios capazes de antecipar o próximo passo em uma tarefa, mesmo quando o indivíduo nunca viveu aquela situação. A descoberta pode explicar nossa capacidade de improvisar, planejar e tomar decisões com base em padrões internos, indo além da simples memória.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Por muito tempo, acreditou-se que a memória era a principal ferramenta do cérebro para resolver problemas. Mas um estudo recente vem quebrando essa ideia. Pesquisadores identificaram um tipo de neurônio que nos ajuda a prever ações futuras, mesmo diante de experiências novas. Essa habilidade pode estar por trás da nossa facilidade de adaptação e raciocínio abstrato — e tem implicações que vão da neurociência à inteligência artificial.

Neurônios que indicam o progresso de uma tarefa

Cerebro Idiomas
© Freepik

Publicado na revista científica Nature, o estudo utilizou ratos como modelo para entender como o cérebro mapeia o desenvolvimento de uma ação. Os animais foram treinados para percorrer quatro pontos em busca de recompensas. O curioso é que, mesmo quando a ordem dos pontos mudava, eles sabiam qual seria o próximo passo.

Durante os testes, os cientistas registraram a atividade cerebral dos ratos com o uso de eletrodos. Foi assim que encontraram um grupo de células que se ativava não com base no local onde o animal estava, mas no quanto ele já havia avançado em relação ao objetivo. Essas células foram batizadas de “neurônios de progresso para a meta”.

Ao contrário dos neurônios espaciais clássicos, como as place cells do hipocampo, que indicam localização, essas novas células sinalizavam quanto faltava para completar a tarefa. Ou seja: o cérebro dos ratos parecia medir etapas internas de progresso, não apenas espaço físico.

Como o cérebro antecipa o futuro

O estudo mostrou que algumas dessas células se ativavam quando os ratos estavam a cerca de 70% do caminho até o destino. Outras indicavam metas intermediárias, como se o cérebro dividisse a tarefa em pequenos marcos. Isso sugere que há um mecanismo interno que rastreia o andamento de uma ação e permite antecipar o que vem a seguir.

Esse “mapa de progresso” interno pode ser o responsável por muitas das nossas habilidades diárias, como improvisar uma receita sem seguir instruções ou planejar os passos de um projeto complexo. Ele funciona de forma diferente da memória episódica, pois não depende de experiências anteriores idênticas, mas sim do reconhecimento de padrões e estruturas.

O papel da abstração no comportamento

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© Unsplash

Segundo os autores, esses neurônios mostram que a corteza cerebral atua como um centro de organização abstrata do comportamento. Ela integra informações sobre o que já foi feito, onde estamos e para onde podemos ir. Isso permite decisões mais flexíveis e inteligentes.

Essa capacidade de antecipação também reforça nossa habilidade de generalizar tarefas: por exemplo, se aprendemos a fazer uma coisa de um jeito, conseguimos adaptar o conhecimento a uma nova situação semelhante. Isso pode ser uma base biológica para funções complexas como imaginação, planejamento e raciocínio lógico.

Implicações para a inteligência artificial

Além de trazer novos insights sobre o cérebro humano, a descoberta tem grande potencial para a criação de sistemas de inteligência artificial mais sofisticados. Ao entender como o cérebro prevê o futuro, pesquisadores podem desenvolver máquinas que não apenas sigam comandos, mas também antecipem resultados, adaptem comportamentos e resolvam problemas com criatividade.

Sistemas capazes de “pensar em etapas”, como esses neurônios, seriam úteis para robôs, assistentes virtuais e tecnologias autônomas, tornando a IA mais parecida com a inteligência humana.

 

Fonte: El Confidencial

 

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